quinta-feira, outubro 13, 2005

VERDES INOCENTES ANOS


Apanho o comboio das 17 horas, com destino ao Porto. Faltam sensivelmente cinco minutos para a partida, e ao espreitar por entre a janela, avisto multidões, rostos insípidos de tristeza recortada nos prolongados e sentidos abraços. Bandos de namorados, unidos num último beijo, desejando que aqueles instantes decisivos se tornem vitalícios ou que pelo menos se ampliem milagrosamente em horas, meses, anos. Observo ainda famílias separando-se relutantemente de um pai ou de uma mãe que se ausenta, muito provavelmente na procura de uma vida melhor...de um novo emprego...de uma nova esperança.

Sempre tive como lema que, se de uma despedida se tratasse, quanto mais próximo da partida, mais próximo de reencontrar aquela pessoa estaria; num futuro a definir.........Saudade é uma palavra fortíssima, também na impossibilidade de a traduzir em qualquer outra língua. Fora criada nos momentos áureos dos Descobrimentos, simbolizando um infindável reunir de emoções.

Num relance mais atento, todos aqueles rostos tomam feições magras, esguias, inchadas, rústicas, transparecendo ávidos sinais de melancolia! O comboio parte, dando-me a erronia sensação de que quem se encontra na plataforma inicia a caminhada e de que eu permaneço.

O clima austero e desenraizado vivido na estação é sumptuosamente arrastado para as carruagens. Procuro algum sinal de tranquilidade, e é numa criança que o avisto. Cerca de dois lugares à minha frente, uma menina encontra-se voltada para trás, debruçada sobre as costas do assento. Não consigo desviar os meus olhos de tão magnifica criatura; sendo consumido pelos seus radiosos olhos. Olhos esses de tonalidade verde, vivos e apaziguadores...por instantes penso: “O divino passou por aqui!”. Tal é o seu estado de inocência e de alma pura, belezas essas que um dia inevitavelmente serão roubadas...pela intempéries da vida.

Não sou capaz de ficar indiferente, nem mesmo pestanejar ou soltar as amarras ouso. Encontro-me num vortex cuja miragem é aquela pequena força da natureza. Tudo o resto mera encenação. Perturbado e ao mesmo tempo cativado pela vulnerabilidade, esplendor e insustentável beleza daquele ser humano de sorriso contagiante; só volto a acordar para a realidade no instante em que se faz ecoar o estridente apito do comboio. Abrem-se as volúteis portas, convidando-me a sair...é tempo de partir...chegara ao meu destino...

Ainda não chegou o momento de ser pai, apenas sinto que um filho é o amor dos pais tornado real, é mais pele por onde sofrer! Perpetuar sangue do nosso sangue!

Em tempos fora criança, é nessa tenra idade de suspiros inocentes que se encontra a magnânima beleza da vida; tal como nas pinceladas de um pôr do sol, num bailado de uma onda do mar, desde a sua formação em alto mar ao seu declínio a meus pés ou mesmo no simples bater de asas de uma borboleta, polvurizando micro-alegrias.

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Querido Pedro aqui vai então o meu primeiro testemunho: ....
... Que beleza!! acho que é quase simplesmente isso que tenho a dizer. Escreves tão bem Pedro que sempre que começo a ler qualquer coisa tua sinto que "tears are going to stream down my face" (coldplay)...
Sei que também desejas ouvir críticas "menos boas" aos teus textos mas acho que neste meu primeiro comentário não mereces, pode ser?? ;)
Beijos da tua old friend * * * JV

segunda-feira, novembro 07, 2005 8:55:00 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Tanta melancolia! Tanta amargura a falar de uns verdes anos que ainda têm de existir para ti.Não é pela vida nos criar algumas feridas que devemos olhar para os olhos inocentes de uma criança e pensar que o que eles vêem desapareceu para sempre de nós. Pensar que os "verdes e inocentes anos" se foram para sempre. Os "verdes e inocentes anos" são um estado de espírito. Para alguns nunca existem. Para outros existem sempre.A propósito o que queres dizer com "volúteis portas".
Um abraço
M3CUBO

segunda-feira, dezembro 05, 2005 6:38:00 p.m.  

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