quinta-feira, outubro 13, 2005

FEIRA DA LADRA – O OUTRO LADO


Foram-se somando os anos e a vontade da imperativa visita à Feira da Ladra permaneceu...irrealizável. Mas, prioridades são prioridades e as minhas sempre foram no sentido de coleccionar manhãs de Sábado, na companhia dos lençóis, instituindo a paz semanal. Neste passado fim de semana as prioridades foram outras, jogaram a favor da Ladra, isto porque um grupo de amigos (Brunos, Luís e Pedro) se aventurou nos meandros da Feira. Queriam passar para o outro lado do balcão; experiênciar a outra face do espelho - a de comerciantes.

Juntaram todo o bricabraque, adquiriram a licença e fizeram-se ao “negócio”. Sinto ser uma profissão honrosa, desde que quem a pratique se coadune com os requisitos mínimos de civismo. Afinal quem não quer despachar umas quantas traquitanas enclausuradas no pueril baú do esquecido sótão?!

A Feira da Ladra, com raízes que remontam ao século XIII, mudou sucessivamente de sítio até se fixar no campo de Santa Clara. Este passado histórico da feira vem-se eclodir no de caixeiro viajante dos próprios feirantes.

Relembro-me que o acordar, neste prometedor Sábado, fora desafio heróico; tal era a força da gravidade exercida sobre o meu flácido corpo com timbre alucinado. Os meus amigos, esses sim, considero-os os verdadeiros estóicos na medida em que abriram o estaminé logo pelas seis da manhã, assegurando assim um bom “spot”.

Iniciei, com a Joana, a incursão por volta das nove e meia da manhã. Vagueei por toda a praça de forma metódica e olho de felino. Queria sentir o clima, sorver o aroma da manhã, absorver-me no espectro da quinquilharia. Com passos lentos e precisos, ia conhecendo um novo mundo, de uma feira...em tudo diferente das outras que conhecera; embora relembrando a de Nothing Hill. Havia barracas de muitos géneros, nos gostos e produtos que ofereciam/vendiam. Avistei as dos “habitues” na arte de bem aldrabar, as dos artistas, as dos alfarrabistas, as dos vira-latas e até as de gente como eu e os meus amigos.

Foi na tenda de um artista autodidacta, com artesanato sino, que me detive por prolongados e apaixonados momentos. A Joana retivera o olhar em tecidos de seda chineses, suspensos para venda num pinheiro. Como tal, teceu-se ali um efémero contacto. Este cinquentenário homem, embora português, vivera muitos anos nas Ásias, contrastando com a sua nórdica aparência, “enqueixando” uma acinzentada pêra de bom profeta, lenço ao pescoço, chapéu Indiana e todo ele envolvido em ganga. Não será demais apelidá-lo de “o Attenborough da Ladra”.

Neste contacto, ficámos a conhecer um pouco deste nómada, suas aspirações e sonhos...as estampagens numa peça de roupa que nunca finalizou, destinada ao filho que mal conhecera, onde pretendia incluir os sonhos deste primogénito, entre amores e brincadeiras que os interligavam. Na altura, esta criança com apenas oito anos, hoje com dezoito e com a paixão pela arqueologia. Dissera-nos, com carisma, este pai que, talvez com um simples traço, perfazendo o número 1, pudesse completar a dita camisola. Dez anos de sonhos perdidos...numa camisola que, segundo afirmava, adquiriria as formas do corpo e a lucidez do movimento. Espero que um dia esta peça de roupa encontre o seu dono, acreditando eu também que possuirá movimento, impregnada em vida própria, no corpo de um jovem de rosto esmorecido.

Já tínhamos dado praticamente a volta ao circuito e continuavamos sem encontrar a razão da caminhada, e foi quando nos preparávamos para cortar a meta que os avistei. Como bom mirone, procurei observá-los por intermédio da discreta janela de um carro que serviu de escotilha. Quem diria...o que o meu espiar concluiu! Aquele bailado de bons feirantes, postura de quem vende uma relíquia a preço de amigo. A calma e táctica no dobrar das calças, ou o empunhar de camisolas aos olhos de todos os clientes! Dirigi-me até eles numa gargalhada, devolvida por quatro sorrisos na minha direcção, manta no chão, uma vitrine a céu aberto, calças, camisolas, sapatos, casacos, t-shirts, parafernália informática - mas que grandes ciganões!!!

Apercebi-me de que as mercadorias voavam entre braços de fregueses, braços dos meus amigos recém-feirantes; guardadas posteriormente em sacos de plástico de quaisquer hipermercados, provisoriamente facultados por estes. Enquanto por lá permaneci, assisti a muitas e cómicas situações, motivos de grande afluência; quatro inocentes almas trabalhando árdua e fidedignamente neste projecto. Passo a citar algumas das experiências, umas que tive a sorte de observar, outras que me foram por eles, apaixonadamente, relatadas.

Soube que os grandes abutres chegaram de madrugada, quando os meus amigos ainda se encontravam a montar a banca. Estes “profissionais” coleccionadores (como os intitulei), apareceram de lanterna e arrecadaram o principal - os artigos Vintage que os meus companheiros decidiram levar para a feira. Também se depararam com situações tais como um homem que insistia em pagar 9€70 por umas calças de 10€, regateando a diferença. Outro que pretendia adquirir um baralho de jogos de Gameboy na troca de dois velhos telemóveis.

A manta estendida no chão que fora, durante a manhã, mudada quatro vezes de lugar, encontrava-se agora entre duas de dois Grandes senhores da feira: um cigano que vendia pratos, sendo cada um de sua nação e o outro, um alfarrabista cujo volume de negócios era tal que lhe permitia viajar até destinos como Cuba. O cigano decidia trocar a frase de chamariz a cada dez minutos, passando de: “pack de dois por dez euros” para: “pack de 5 por 25 euros...para a menina e para o menino”. Por vezes perguntava-nos se estaria bem àquele preço, se seria imperativa a mudança no valor. Chegou até a querer comprar ao Luís um belo casaco de ganga que passava indiferente ao olhar de outros compradores. Insistia pagar menos do que o meu amigo pedia por ele, e quando o casaco foi finalmente vendido a um terceiro, disse-lhe que o cigano ali era ele e que andava a ser engrupido, soltando de seguida um saudável gargalhar.

Soube também da caricata situação de outro feirante vizinho que, após estar umas escassas horas no acto da venda, se fartou da profissão e pediu apenas cinco euros por toda a artilharia. É no mínimo absurdo pois, no seu catálogo, encontravam-se uns pés-de-pato, entre outros objectos de algum valor. Outro homem aceitou o negócio deste mas, certo é que não consta ter vendido mais nada; pobre homem...o primeiro sabia mais!

Houve gente de todas as gerações e classes em volta da banca dos meus amigos, comprando dos mais variados artigos. Regra geral, os romenos e indianos interessavam-se por mercadoria relativa a computadores, os africanos por t-shirts, os brancos por calças, os meus amigos por fazer um bom negócio, em prol de todos e eu por absorver ao máximo aquele quadro no qual, por vezes, me era permitido interagir. Fiquei impressionado por saber do episódio de um cidadão que decidiu comprar quatro pares de calças de qualidade quando comparadas com as quais se fazia vestir, rotas, estragadas, sujas e gastas de uma vida de posses pouco sonantes. Pedira ao Bruno para lhe cobrar menos um euro por cada uma delas: “o euro que me custará fazer a bainha”.

Deixo para trás os meus amigos, ouvindo-os com verbosidade indomável: “se não lhe servir porque não para o seu filho?”. É caso para dizer: “patins para a avó”...

Nesta feira encontra-se de tudo. É também um lugar onde nos podemos encontrar e deliciosamente aprender com esta miscelânea de raças, de gostos, de ofertas, de saberes e crenças mas que no fundo se reúne todos os Sábados para um propósito - o da troca de géneros, palavras, olhares; quer seja troca por troca, venda, oferta. O que a meu ver considero implicitamente importante passa por fazer rolar os pertences. O que para uns se tornou obsoleto pode, a um preço irrisório, tornar-se na absolvição de um sorriso para outros.

Esplendor na relva, ou melhor, no alcatrão. Calcinha Levi's, camisola Ralph Lauren, alfarrabista ao fundo da tela...ai esta vida de ciganão!!!

"Olhe estas tão boas! Feitas por encomenda. É grátes, é grátes, não encolhem na máquina e com garantia de 3 segundos...e se encolherem...ahhhh.........fica calção". Que parecer bíblico!!!

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Grande aventura! eheheh
Eu tambem já estive do lado dos feirantes, à já uns anos...com a Welwitcha! mas nós fomos mais ousadas e não adquirimos licença. Obviamente tivemos que andar fugidas à polícia, que estava constantemente a rectificar se todos os "barraqueiros" tinham a burocracia e beneplácitos em dia....mas a nossa tentativa de negócio resultou infrutifera!!...não vendemos nada da quinquilharia que nos levou ao campo de Santa Clara. Viemo-nos embora quando passadas já algumas horas e após um diluvio valente, o "tecto" de plástico do feirante adjacente a nós, cedeu, deixando cair um vasto volume da chuva acumulada mesmo em cima da nossa mercadoria...uma miséria! Infame dia!!
Gostei, deveras, de ler a tua crónica..mui elucidativa e mui humorosa...as always! Saudades, daquela que já foi tua vizinha.

quinta-feira, outubro 13, 2005 1:45:00 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Foi sem dúvida uma manhã bastante engraçada e enriquecedora. Não só em termos monetários (sendo esse o objectivo principal), mas também nos permitiu confraternizar com outros "colegas" feirantes e estar em contacto com pessoas de várias raças e classes sociais. Havia realmente de tudo ali. Mas sem dúvida que as pessoas de classe mais baixa nos marcam mais, como foi o caso do episódio, já descrito por ti, do senhor que tinha as calças rotas e nos comprou seis pares de calças, assim como outro de um senhor que me quis comprar (mostrando bastante interesse!!) um rádio que para mim nada valia, mas para ele seria uma relíquia. Dá que pensar!!!
Para além destes momentos, houve também grandes momentos de risota entre nós, especialmente quando um de nós tentava vender o seu produto e os outros reparavam na arte de bem negociar e impingir o seu produto. Foi também mais um momento de confraternização de um grupo de amigos, mas agora num ambiente completamente diferente.
De salientar que tivemos na feira seis horas mas o tempo passou tão rapidamente que mais pareciam duas.
Gostei muito da tua crónica que descreve bem aquele ambiente de asáfama num diferente sábado de manhã fora dos lençóis.
Abraço do teu amigo feirante que fica à espera de mais histórias ilariantes.

quinta-feira, outubro 13, 2005 7:17:00 p.m.  

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