quarta-feira, dezembro 07, 2005

O REI PESCADOR E O BAPTISMO DE MAR


Fui finalmente mergulhar com o amigo Silvestre; aquele que me orgulho de apelidar de o rei pescador, senhor do mar, transpirando sal por todos os poros. Este velho amigo cumpre todas as semanas o ritual da caça submarina, sendo bruxas a sua principal presa.

Iniciou-se o aquecimento na garagem do rei, onde elasticidade e fôlego para vestir o fato são mais do que requisitos para se enveredar no mergulho. Enquanto o Silvestre ia preparando o material, elucidava-me sobre o facto de ser de extrema importância molhar os fatos e besuntá-los com champô; segredos desnecessários em material de surfe. Equipámo-nos ainda na garagem: fato, máscara e tubo, luvas, botas, barbatanas, lanterna, cinto de pesos, rede para as bruxas, coração quente e expectante e estávamos preparados para enfrentar o frio metálico que se fazia sentir numa noite de Novembro. Totalmente envoltos em neoprene, saindo da garagem num carro preto ao bom nome dos “Men In Black”, trocando os Ray Ban pela salgada máscara; imaginava-me a acenar para carros alheios, nos eventuais semáforos pelos quais passássemos.

Foram várias as vezes que fiz snorkeling, variadas as vezes que senti a areia fria massajando-me os pés, inumeráveis as vezes que senti os rastos das lágrimas do mar escorrendo-me pelo corpo, mas nunca juntara todos estes condimentos numa única noite. Isto para dizer que se tratava do meu baptismo de mar, baptismo de mergulho, baptismo de caça submarina.

Sentia-me o Robocop com um cinto que me garantia mais oito quilos, um fato de 7mm de espessura (muito além do meu velhinho 3x2 mm), barbatanas com quase um metro. Felizmente voltava a ganhar mobilidade, no mar, porque todo este material é feito para o mar e o material tem sempre razão! Há que cuspir sobre as lentes da máscara para que jamais se embacie e já com todos os “gadgets” salgados, fui seguindo o rei na penumbra da ofegante noite; entrecortada pelo foco emitido pela lanterna, refractando mar adentro. Dar à barbatana, empunhar a lanterna na mão esquerda, buscar o oxigénio por intermédio de uma espiral de um centímetro de diâmetro, observar por entre 1mm de vidro os corais que se aproximavam, os peixes que tonificavam as profundezas e... acima tudo ouvir o silêncio! Sentia uma companhia invisível, provavelmente o pulsar das marés ou quem sabe a adrenalina que fulminava dentro de mim, desvendando o esplendor marinho! O mar jogou por vezes com o meu corpo, arremessado sem piedade contra as rochas. Era ai que ouvia a nasalar voz do rei: “Não te preocupes, o mar quando bate, cava, entre ti e os rochedos, uma espécie de “air bag”. Quanto ao rei, ficava maravilhado com a sua destreza, familiaridade com o fundo do mar, conhecendo todos os orifícios cravados nas rochas. No prolongamento dos seus pulsos, as mãos fundiam-se em tenazes, sacando todos os habitantes submersos... era encantatório aprender com o domador da vida aquática.

Após três molhadas horas, deram-se as braçadas de regresso à costa que lentamente se avistava, fazendo-me lembrar um memorável desembarque à James Bond, oculto na escuridão. Depois seria simplesmente despir o fato, submergindo um imaculado smoking do seu interior; olhar para o relógio de pulso, entrar numa restrita festa e ir directamente buscar um vodka-martini para saciar a sede do herói quando, num piscar de olhos, fizesse o lance à Bond Girl.

Os verdadeiros heróis têm um desembarque mais humilde, mais salgado à priori, frio mas quente de emoção. Não se livram do equipamento e por baixo do fato transparece tão lúcida e arrepiada pele humana. E por baixo da pele? Bom, por baixo da pele estes dois carismáticos retêm as recentes molhadas memórias que jamais secarão.

Como resultado da caçada, o rei apresentava-se com duas redes à cintura, repletas de marisco (uma com bruxas, a outra com navalheiras) e eu com uma simples estrela do mar numa das redes. Fui mero observador e seria de estrema audácia tomar o lugar do rei; seria o mesmo que colocar o Silvestre a escrever estas frases – impróprio para o “Action Man”! Para além disso obtive, como cicatrizes de guerra, um inchaço no sobrolho direito e surdez provisória de um dos ouvidos (ainda passados dias a tenho).

E o que se pode concluir deste mergulho? Reformulo a pergunta: um tipo vai para o mar, nada de uma costa à outra. Quimicamente falando o que se pode concluir? Eis uma das perguntas que saíra num exame de Química do meu pai, formulada por um professor do IST. Professor muito contestado e controverso cujas perguntas apareciam anualmente na televisão.

E que destino teve este marisco, ainda vivo nas redes do possante “action figure”? As navalheiras, por serem marisco plebeu foram para o nosso estômago, no jantar dessa mesma noite, bem regadas com cerveja. E as bruxas – como “fait diver” da opulência - foram parar aos viveiros de um restaurante de elite.

Sei que o Silvestre tem um enorme coração, com dimensões maiores do que o normal - bombeia com o dobro da força do meu. O rei costuma brincar dizendo que padece de amor em excesso! Ele sabe amar e também sabe a mar. Sabe amar a natureza, sabe amar os amigos, sabe amar o ser humano - fiel e activo doador de sangue e de medula – quando me diz: “Não há melhor do que salvar uma vida. Saber que posso até prolongar a vida do desconhecido...”. Quanto custa uma vida? Quanto custa ajudar a prolongá-la? Encontra no mar um partido, uma dependência e uma terapia. Quando vai para o mar, seja quando estão a entrar alucináveis e abissais ondas para o seu bodyboard kamikaze, ou quando o busca para o seu mergulho ou até mesmo quando me telefona para irmos tão simplesmente espreita-lo naqueles tempestuosos e nublados dias; sente e sabe que o Mar é um amigo a lidar com respeito. Conhece a sua natureza muito embora eu comece a suspeitar que, como filho pródigo do Mar que é; já lhe estejam a crescer guelras e até, talvez um dia, lhe seja permitido caminhar sobre o mesmo. Caminhá-lo-ei contigo meu amigo.

Palavras do rei: “Tudo muda mas certas coisas ainda são como eram. Nos tempos modernos ainda encontramos alma portuguesa... no mar. Sonhar é bom e recomenda-se - partir à descoberta de que afinal o mundo não é tão grande quanto julgamos”. Eu partilho da opinião do Silvestre pois penso que a alma portuguesa estará sempre ligada ao mar, afinal somos uma centelha no culminar desta Península, ladeados por mar, cujas raízes estar-lhe-ão sempre associadas. No passado, vinculados pela prosperidade que este trazia, no passaporte para novos horizontes. O próprio sal que o salga, que noutros tempos era usado como moeda de troca, como método de conservação de peixe. No presente, a relação simbiótica que cada vez mais se vê travada com este gigante, o crescente número de desportos e passatempos dependentes do mar. Somos sem dúvida filhos do mar, os mais Atlânticos deste pai. Sempre que procuro abrigo para reencontrar o meu estado de alma, busco no mar a força que perdera... Sento-me no rochedo onde este bata com mais bravura, contemplo-o e entrego-me ao seu sabor, gritando-lhe: “Eis o teu filho, o Príncipe das Marés!”... depois, deixo-o actuar sobre mim...


Como o rei costuma dizer, após uma pescaria: "Tá carregadinho!"

De regresso à garagem para um "Happy End"no levantamento do peso. Custa muito mais tirar este fato do que colocá-lo. Apeteceu-me rasgá-lo como o fazem as Miss T-Shirt Molhadas! Quanto ao banho de água doce surgiam duas opções: ou mantinha o ritual de deixar a água do mar a exercer o "banho de maria" por umas horas ou tomava-o na própria noite. Escolhi a segunda hipótese pois não surgiu nenhuma Maria na banheira e ao mesmo tempo livrei-me da constipação! Enfim epopeias...dilemas dos homens do mar...

Nota: Resposta à pergunta de Química – tão simples como: matéria orgânica não é solúvel na água.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Como personagem desta história, não podia de deixar aqui as minhas palavras. Apesar de no final da leitura (coisa rara na minha vida) os meus sentimentos me terem roubado as palavras. Já andei a espalhar a nossa história pelo meu povo.
Sinto-me mesmo lisonjeado. Sei “bajular” as pessoas, mas não é isso que quero, com as minhas seguintes palavras. É como tu dizes um dia ainda vou adorar ler, tenho é de encontrar o livro certo, para que as letras saltem do livro como as senti a saltarem enquanto lia a nossa aventura. Amigo, acho mesmo que um dia quiçá, ainda vou gostar de ler e poder dizer que o melhor livro que li é o “ABCDE….” do escritor PEDRO MADEIRA (nas horas vagas, sim porque ainda temos muito betão para betonar neste país). Já sei qual vai ser a tua reacção, parece que estou já a ver a expressão da tua cara (de sorriso gozão), mas acredita que a vida dá muitas voltas, e numa dessas voltas uma vez que estás já no meio, podes muito bem entrar no mundo da escrita…

sexta-feira, dezembro 09, 2005 2:59:00 a.m.  
Anonymous Anónimo said...

Pois bem... como bom primo do silvestre, tenho de deixar um belo de um comentario. Nao ta nada mal escrito , nao senhor, e tambem nao posso dizer que a historia nao é real mas o personagem ta um bocadinho apenas exagerado, porque ele nao é tao forte assim...

Abraços, Pedro

sexta-feira, dezembro 09, 2005 9:47:00 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

realmente o silvestre não pára de me surpreender ( sempre pela positiva é claro) :). Ao ler este texto, pensei tratar-se do Costeau, mas era o silvestre. Grande foto com as navalheiras ( esse marisco plebeu). Só precisas é de pôr fotos tuas na fase do mergulho para eu acreditar melhor. ;). Grande narração do Wood. Um grande abraço para vocês dois.

domingo, dezembro 11, 2005 11:04:00 p.m.  

Enviar um comentário

<< Home

Site Meter