sábado, outubro 04, 2008

IN MEMORIAM

Desejei-te, certamente, porque vieste ao mundo na inocência do meu segundo aniversário! Descreveram-se 25 anos, adoçados com outros presentes, novos sorrisos, embora sem eco face à insustentável maravilha do teu ser!

A união de um óvulo e de um espermatozóide é um instante fatidicamente decisivo e as dez horas e trinta e cinco minutos de uma manhã de terça-feira Outonal, num longínquo ano de 1983, marcaram o compasso cardíaco de todos os que, tal como eu, se cruzaram na tua vida. Surgiste forte e saudável, com uma alegria e fúria de viver que abraçaram toda a tua infância e adolescência.

Vieram depois as ondas do firmamento, e as teias da meninice cristalizaram-se e fizeram de ti um protector. Protector da vida animal, da orla do mar e espuma que aquece o olhar ao espreitar a areia, das grandes causas e dos mais idosos, do gatinhar de singelas crianças e de todos os que procuraram um ombro amigo... Pela tua mão muitas amizades se fizeram, muitos namoros surgiram, muitos grupos se contruíram.

Partiste acompanhado pela minha habilidade para escrever... deixando-me labaredas na garganta e lagos salgados na fronteira entre os meus olhos. Ficou tanta coisa por dizer... e nem tivemos o direito a despedida... Se pudesse trocar todos os anos que me restam de vida por mais um minuto de vida contigo! Abraçar-te com lentidão e com lentidão ver-te partir... gritando que te amo meu irmão...

Sabes? Parece irónico quando me lembro de me dizeres, com profunda tristeza, que o teu telefone não tocava, sabendo eu agora que tantas almas choram por ti e que tantas paixões e amizades se revelam! A vida é ingrata e só é valorizada, tal como a obra do artista, quando se desvanece.

Será que me consegues ver ou ouvir? Será que os sonhos que tenho tido têm um significado ou um vínculo muito mais encantatórios e genuínos do que a simplicidade da minha mente ao assumir o papel de realizador? Será?

Imagino-te aqui ao meu lado agora que, com dificuldade, busco estas palavras. Imagino-te na borboleta pigmentada que pula e voa na pradaria, nas ondas do mar pensante que assobia e molda as rochas, na dor de ombro ou de costas que me acompanham, nos últimos raios de sol ao introduzirem as noites clandestinamente frias, na música do vento ou na música em si que surge para nos fazer crer que o divino existe...

Desapareceste com a mesma força que ingressaste na minha vida e nesta manhã dos 25 anos que te foram ceifados, exactamente à mesma hora e minutos que nasceste, tenho o orgulho e a tristeza de te afirmar que és a minha alma gémea pelo simples e complexo facto de me completares em todos os tentáculos que serpenteiam, com astúcia, a espiral da vida. És o gigante que me abrigou!

Ao longo da tua vida fui pensando o que é que realmente te apaixonava, o que é que realmente te intrigava e te fazia querer viver, o que é que te faria perder tardes de descanso ou manhãs floridas. Só agora encontrei a resposta – ajudar os outros! Preocupaste-te sempre muito com todos, saindo prejudicado na maioria das vezes. És um ser divino, pois deste sempre muito mais do que recebeste e a beleza está em tê-lo sempre feito sem esperar nada em troca até ao fim dos teus dias...

Sinto muito a tua falta manolas... um beijo meu querido...

6 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Que dedicatoria tao bonita!Fiquei muito emocionada ao le-la.

Como ja te tinha dito, acredito que os teus sonhos tem um significado. Acho que o Miguel te ve e que, certamente, te acompanhara para o resto da tua vida!

O Miguel era, sem duvida, uma pessoa maravilhosa e nao deveria ter partido tao prematuramente!

Um grande beijo,
Raquel

sábado, outubro 04, 2008 3:28:00 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Está lindo Pedro...lindo como só a sinceridade sabe ser...

sábado, outubro 04, 2008 4:59:00 p.m.  
Blogger Unknown said...

A tua habilidade para escrever está até com mais força!
Um grande beijinho e, neste dia, muito obrigada pelo texto que acabei de ler!

BJs,
Helena

sábado, outubro 04, 2008 10:24:00 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Como já te disse, são muito bonitas as tuas palavras... como é muita bonita a amizade que tu e o teu irmão têm!

Claro que os sonhos têm significado, nem que seja por serem os momentos que continuas a viver com ele!

Não creio que a vida do teu irmão só tenha sido valorizada agora que ele desapareceu.
Acho que agora todos nós pensamos nos momentos que desperdiçámos, em cada gesto, cada palavra, cada projecto que adiámos.
É agora que, esgotado o tempo com o Miguel, percebemos o terrível erro que cometemos ao não aproveitar cada minuto da vida dele! O problema é que há coisas de tomamos como garantidas, que nem pensamos na possibilidade de deixarem de existir… pensamos que temos muito tempo para fazer um telefonema “um dia destes”, por exemplo. E se esse dia tiver que ser hoje?!

Com esta dura perda aprendi a parar de deixar coisas minimamente importantes para amanhã, parar de acreditar que temos todo o tempo.

Penso todos os dias em tudo o que tínhamos combinadas. Nos fins-de-semana que não chegámos a fazer, nos lugares a que não chegamos a ir, nos trinta mil “Amo-te” que não cheguei a dizer, nos abraços que não cheguei a dar… tantas coisas que ficaram e ficarão a faltar nas nossas vidas!
Acreditava que iam acontecer nos dias seguintes...

Penso todos os dias em porque é que não fui ter com ele naquele dia, dar-lhe um beijinho antes de partirem para Lisboa. Ele disse "Não vale a pena. Vemo-nos em Lisboa, é melhor." e eu aceitei sem sequer insistir muito. Se eu soubesse...

Também sinto muito a falta do teu manolas.

quarta-feira, outubro 08, 2008 5:37:00 p.m.  
Blogger Unknown said...

Querido Miguel. Aroveito aqui, juntamente com os escritos dos que tanto amas e que tanto te amam para falar contigo. Adorava ter-te conhecido melhor. Termo-nos encontrado mais vezes, dançarmos mais vezes o twist e cantado o summergirl que tanto associo a ti e ao ao teu ar de engatatao prás miudas giras numa noite de wispers...(xii..ao tempo que isso ja foi..). Recordo-me de ti a vires ter comigo à Av. de Roma com aquele teu carro antigo e nós a imitarmos a actriz que vai com o giraço,e o seu lenço e óculos escuros, no carro descapotável e o vento na cara, como vemos nos filmes daquela época. Adorava ter-te levado a fazer teatro!
De certeza que tinhas jeito! Adorava que me visses numa peça! É urgente que a tua família me vá ver agora que estou cá em lisboa!Porque voces sao uma familia, e minha familia, que quero mesmo que me vejam no palco!Se estivesses por cá podias agora fazer as minhas aulas de iniciação teatral!!Que me dizes?
Aposto que terias muito orgulho de me ver em palco e no final da actuação me lançarias piropos que me fariam ficar toda contente!
Agora que vim cá para lisboa e podia estar mais perto... Mas estou perto, só não sinto ainda que te foste, tu para mim és imortal porque tens esse dom, nao acho que seja qualquer pessoa que o tem. Sol adequa-se de facto muito bem a ti com todos aqueles raios dourados a saírem-te da cabeça. O Rei Sol.
Beijões enormes querido primo. Um até já e um até sempre.
Love, margarida

quarta-feira, outubro 08, 2008 10:42:00 p.m.  
Blogger TheYes said...

Nunca sabemos o que acontece no futuro e por vezes o futuro é cruel demais.
Não imagino o que sentes Pedro, mas digo-te que foi das coisas mais dificies que ouvi este ano.
Não quis acreditar no que ouvia naquele momento...
Gostei da maneira como escreves e demonstras o amor e carinho que sentias pelo Miguel e que sempre esteve bem à vista para os outros.
Tive pena de não vos ter visto este verão e pelo que sei foi apenas um desencontro.
Espero que estejas bem e ganhes força grande Wood.

Abraço enorme,
Filipe (Tibas)

quinta-feira, outubro 30, 2008 12:44:00 a.m.  

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