domingo, outubro 15, 2006

PASSAPORTE PARA ISRAEL

É meia-noite e ele encontra-se no quarto onde viveu por seis intensos anos. Mobília velha e amarelada pelo sol, sofás gastos, canecas e beatas espalhados ao acaso. Paredes forradas com posters que incutem um ar mais familiar e ajudam a preencher o nu das quatro paredes. Retenho o olhar no poster que forra a porta – é um retrato do James Dean em tons sépia numa rua, possivelmente nova iorquina, cabelo ao vento, máquina fotográfica à tira-colo, cigarro humedecido e carros anos 60 delimitando a estrada. Até aqui seria um vulgar quarto de estudante mas hoje este quarto acarreta um peso diferente, peso da ausência, peso da despedida...

O Ameer é israelita, não sendo judeu mas sim druze das montanhas sobre Israel. Cumpriu serviço militar obrigatório ao serviço do seu país por quatro anos, após os quais decidiu que o destino seria medicina. Porquê Praga não sei! Se fosse português entenderia mas a realidade do Ameer é bem diferente da minha. Nunca estive sobre fogo cruzado e apenas pressinto cenários de guerra sobre a janela dos media. Por outro lado, o Ameer sabe bem o que isso é, embora não saiba, tal como eu, o motivo. Mesmo assim não deixa de esboçar um gigante sorriso de optimismo. Admiro-o!

O meu amigo enfrenta esta noite com um brilho nos olhos, um brilho que espelha aquele nó na garganta e que anuncia a despedida. Encontro-me neste quarto num círculo de estrangeiros, empunhando uma caneca com vodka que usarei, noite fora, para os inúmeros brindes ao nosso amigo que parte - assim a dor da partida será partilhada e dividida por todos...

Tento imaginar o que o Ameer sente ao desfazer-se dos pertences que oferece a alguns dos amigos presentes: cadeiras, posters, candeeiros que o acompanharam nesta jornada da vida. Eu queria aquele poster do James Dean mas esse parte com ele...

O Ameer tem uma aparência rude mas que facilmente cai sobre um coração doce e um inglês peculiar que usa para transmitir ideias de camaradagem e de amor. O sotaque atinge o expoente máximo quando diz: “I’m out of it! No more datings! I love Coco you know?!”. A Coco é a namorada que o espera em Israel. Também o esperam uma família de sessenta pessoas ou mesmo uma aldeia inteira. Explica-me o provável comportamento dos seus pares ao recebê-lo – festa e mais festa por dias a fio, muita música, muitas pancadinhas nas costas, talvez fogo de artifício – enfim, é o regresso do filho pródigo.

A conversa flúi e o Ameer acaba por dizer: “Portuguese boy, when I’ll be there in my land mountains, in a quiet afternoon with the sun in my neck and the warm smell of colitas rising up through the air, this is the sort of music I’d like to ear”; e pelas colunas do computador oiço um soar de guitarra que em tudo parece a portuguesa - balada familiar! Malandro, é um fado de Amália! Julgavas que caía?!

Amanhã Praga acordará com um estudante a menos, há um Pedro que sentirá a ausência de um amigo, mas existirá, contudo, um avião que parte com mais um médico e um sorriso, carregando debaixo do braço o merecido canudo, enrolado num poster do James Dean...

Tenho pena de não te ter conhecido melhor amigo das Arábias! O mundo é pequeno e talvez te volte a ver, Europa ou Mundo fora...

Nuno, Pedro e Ameer na noite dos meus 25 anos

Eu e o Ameer no Papas Bar

Ameer envergando o canudo

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