O SONHO A MEUS PÉS – PROFECIA DE UM DESEJO DE NATAL
Parecia ser um dia como outro qualquer. Encontrava-me pela calada da tarde a flutuar sobre o sofá, na tentativa de recuperar o fôlego para mais uma tarde de estudo. Foi ai que a inesperada mensagem surgiu no telemóvel. O Liberal escrevera simplesmente: “O teu desejo de Natal realizou-se – está a nevar em Lisboa! Para a próxima que tal desejares a chave do Euromilhões”. Estava ainda em estado próximo de REM, sem certezas de qual a realidade e qual o sonho. Necessitava de ser beliscado.
Tal beliscão surgiu com a chuvada de telefonemas da rapaziada eufórica – crianças tornadas adultas que partilhavam o mesmo sonho... Curioso como é possível reunir um grupo de amigos num pulsar de segundos, todos com obrigações académicas, juntos na insustentável libertinagem de saciar com um olhar o sonho da eterna juventude!
Depois, foi procurar fugazmente agasalhos, máquina fotográfica, botas, pedir para ser novamente beliscado e saltar para o carro com o gang e... Sintra prometia... prometia pelo misticismo, prometia pela sensibilidade apaziguadora daquela paisagem que jorra das próprias raízes o fruto que semeia e não colhe, o perfume da hipnose manchado no arco-íris de sabores silvestres, a calma do impenetrável. Já no início do século passado, quando Lisboa era ainda considerada o esgoto do temperamento Português, sem regras urbanísticas ou de higiene; Sintra era vista pelos Ingleses como o Oásis no cimo daquela colina. Na realidade, foi graças a estes senhores feudais que, ao instalarem-se por cá, tornaram Sintra na perpetua magia que a caracteriza, mesmo ao olhar dos mais distraídos.
O percurso até ao nosso destino parecia agora longo. Os metros tornavam-se quilómetros, a neve derretia sobre a cidade e o carro perdia-se rumo à terra prometida. A pergunta pairava no ar - Seria possível os efémeros flocos ainda se encontrarem cristalizados em Sintra? O frio que cobria o veículo era quebrado pelo calor da expectativa!
Ao iniciar-se a subida da serra constatou-se aquele comboio de domingueiros (e era mesmo Domingo). Assemelhava-se ao comboio de Natal que referi na crónica anterior. Um cenário próximo dos anúncios da Coca-Cola com aquelas luzes e carrinhas encarnadas em fila; debitando: “Holidays are coming!”. A chegada ao cume aproximava-se e com ela a suspeita da incerteza que nos assaltava o espírito ao descrever cada curva. Felizmente os primeiros flocos foram avistados e mais tarde a neve caindo sobre os cedros, sobre o musgo, sobre as plantas, sobre nós.
Tal como crianças pela estrada fora na iminência de pedir aos pais para urinar, também nós queríamos parar para sentir aqueles nenúfares brancos gelarem sobre as mãos. Estacionar na Peninha e quebrar o gelo, quebrar a curiosidade com aquele brilhozinho no olhar.
Não nos cansámos de olhar e ser olhados, brincar e ver brincar, partilhar, correr e rebolar no infinito impenetrável. Sem esquecer as típicas batalhas campais, sem esquecer um dia que não se repete. Crianças por mais um dia e viajar no tempo até aos ditames da meninice...
O Silvestre marcava o passo e sempre que se voltava para trás arremessava-nos com rajadas de neve – o típico puto. O Feliz, completamente quitado, procurava um monte de espessa neve onde fazer deslizar a prancha de body-board – destruia a neve e não as ondas. O Bruno L. inspeccionava de cócoras o terreno e abria os braços à Cristo-Rei para abraçar o nevoeiro – presa fácil para as bolas de neve do Silvestre. O Bruno M. virava-se constantemente para mim e dizia: “Master, eu quero é ver o blog disto”. A Sofia queria era fotos e mais fotos – quando na realidade levava com neve e mais neve... do Silvestre. O Leão, sempre de mãos nos bolsos contemplava a paisagem e bradava suspiros imperceptíveis sempre que eu lhe perguntava o que sentia – mais valia estar a levar boladas do Silvestre! A senhora do Feliz sentia-se feliz por ver o seu homem a estender-se no tapete de neve para bracejar – sem dúvida uma mente silenciosa. E eu respirava a paisagem nevada que desaguava sobre as dunas do Guincho – aquela parceria entre neve e mar, areia e gelo, homem e natureza, simplicidade e felicidade que nos aquecia.
As ligações dos cristais de gelo começavam a quebrar-se, a noite vinha para jantar mas o frio permanecia. Nada melhor do que deslizar até à Sintra-cidade para, entre conversas e gargalhadas, brindar com um chocolate bem quente entre as mãos e um travesseiro de Sintra entre os olhos e o estômago.
Não deixa de ser uma coincidência de um feliz acaso; pensar e desejar para o Natal algo que surge a meus pés exactamente um mês depois do Natal (26 de Janeiro de 2006). Não deixa de ser fantástico pela imprevisível fuga às obrigações rotineiras, pela vivacidade que nos uniu e nos fez largar cadernos e trabalhos... e depois chumbei... e ainda pela suspeita da improbabilidade da repetição.
Resta-me sonhar e desejar o Euromilhões para oferecer uma viagem até Vail à malta jovem. Um outro tipo de neve - é o caviar das estâncias nevadas e o melhor tapete onde deslizar os skis, uma outra latitude geográfica e fuso, um outro abismo mas sempre na esperança de que todas as possíveis aventuras que estão por descrever sejam esculpidas sobre os ditames do mesmo hino (o da alegria, o da camaradagem e simplicidade, o da errância até aos limites, o da amizade sem fim).
Bem, mas primeiro vou sonhar com bom tempo, manhãs rupestres, tardes solarengas e noites “calientes”!
E até parecia ser um dia como outro qualquer...
Tal beliscão surgiu com a chuvada de telefonemas da rapaziada eufórica – crianças tornadas adultas que partilhavam o mesmo sonho... Curioso como é possível reunir um grupo de amigos num pulsar de segundos, todos com obrigações académicas, juntos na insustentável libertinagem de saciar com um olhar o sonho da eterna juventude!
Depois, foi procurar fugazmente agasalhos, máquina fotográfica, botas, pedir para ser novamente beliscado e saltar para o carro com o gang e... Sintra prometia... prometia pelo misticismo, prometia pela sensibilidade apaziguadora daquela paisagem que jorra das próprias raízes o fruto que semeia e não colhe, o perfume da hipnose manchado no arco-íris de sabores silvestres, a calma do impenetrável. Já no início do século passado, quando Lisboa era ainda considerada o esgoto do temperamento Português, sem regras urbanísticas ou de higiene; Sintra era vista pelos Ingleses como o Oásis no cimo daquela colina. Na realidade, foi graças a estes senhores feudais que, ao instalarem-se por cá, tornaram Sintra na perpetua magia que a caracteriza, mesmo ao olhar dos mais distraídos.
O percurso até ao nosso destino parecia agora longo. Os metros tornavam-se quilómetros, a neve derretia sobre a cidade e o carro perdia-se rumo à terra prometida. A pergunta pairava no ar - Seria possível os efémeros flocos ainda se encontrarem cristalizados em Sintra? O frio que cobria o veículo era quebrado pelo calor da expectativa!
Ao iniciar-se a subida da serra constatou-se aquele comboio de domingueiros (e era mesmo Domingo). Assemelhava-se ao comboio de Natal que referi na crónica anterior. Um cenário próximo dos anúncios da Coca-Cola com aquelas luzes e carrinhas encarnadas em fila; debitando: “Holidays are coming!”. A chegada ao cume aproximava-se e com ela a suspeita da incerteza que nos assaltava o espírito ao descrever cada curva. Felizmente os primeiros flocos foram avistados e mais tarde a neve caindo sobre os cedros, sobre o musgo, sobre as plantas, sobre nós.
Tal como crianças pela estrada fora na iminência de pedir aos pais para urinar, também nós queríamos parar para sentir aqueles nenúfares brancos gelarem sobre as mãos. Estacionar na Peninha e quebrar o gelo, quebrar a curiosidade com aquele brilhozinho no olhar.
Não nos cansámos de olhar e ser olhados, brincar e ver brincar, partilhar, correr e rebolar no infinito impenetrável. Sem esquecer as típicas batalhas campais, sem esquecer um dia que não se repete. Crianças por mais um dia e viajar no tempo até aos ditames da meninice...
O Silvestre marcava o passo e sempre que se voltava para trás arremessava-nos com rajadas de neve – o típico puto. O Feliz, completamente quitado, procurava um monte de espessa neve onde fazer deslizar a prancha de body-board – destruia a neve e não as ondas. O Bruno L. inspeccionava de cócoras o terreno e abria os braços à Cristo-Rei para abraçar o nevoeiro – presa fácil para as bolas de neve do Silvestre. O Bruno M. virava-se constantemente para mim e dizia: “Master, eu quero é ver o blog disto”. A Sofia queria era fotos e mais fotos – quando na realidade levava com neve e mais neve... do Silvestre. O Leão, sempre de mãos nos bolsos contemplava a paisagem e bradava suspiros imperceptíveis sempre que eu lhe perguntava o que sentia – mais valia estar a levar boladas do Silvestre! A senhora do Feliz sentia-se feliz por ver o seu homem a estender-se no tapete de neve para bracejar – sem dúvida uma mente silenciosa. E eu respirava a paisagem nevada que desaguava sobre as dunas do Guincho – aquela parceria entre neve e mar, areia e gelo, homem e natureza, simplicidade e felicidade que nos aquecia.
As ligações dos cristais de gelo começavam a quebrar-se, a noite vinha para jantar mas o frio permanecia. Nada melhor do que deslizar até à Sintra-cidade para, entre conversas e gargalhadas, brindar com um chocolate bem quente entre as mãos e um travesseiro de Sintra entre os olhos e o estômago.
Não deixa de ser uma coincidência de um feliz acaso; pensar e desejar para o Natal algo que surge a meus pés exactamente um mês depois do Natal (26 de Janeiro de 2006). Não deixa de ser fantástico pela imprevisível fuga às obrigações rotineiras, pela vivacidade que nos uniu e nos fez largar cadernos e trabalhos... e depois chumbei... e ainda pela suspeita da improbabilidade da repetição.
Resta-me sonhar e desejar o Euromilhões para oferecer uma viagem até Vail à malta jovem. Um outro tipo de neve - é o caviar das estâncias nevadas e o melhor tapete onde deslizar os skis, uma outra latitude geográfica e fuso, um outro abismo mas sempre na esperança de que todas as possíveis aventuras que estão por descrever sejam esculpidas sobre os ditames do mesmo hino (o da alegria, o da camaradagem e simplicidade, o da errância até aos limites, o da amizade sem fim).
Bem, mas primeiro vou sonhar com bom tempo, manhãs rupestres, tardes solarengas e noites “calientes”!
E até parecia ser um dia como outro qualquer...
Os primeiros toques de neve
Folhagens brancas
Fotografia de grupo antes da golpada
Peninha - onde dantes brotava o verde e o castanho crescia agora a tela branca





3 Comments:
Peço-TE perdão, meu nobre ESCRITOR. Por tantas pedras que te atirei, mas tinham algum fundamento. Pois julguei-te cedo demais. Pensar eu, que a falta de novas crónicas se devessem à TUA falta de criatividade. Que as anteriores crónicas fossem nada mais (como o assunto desta história) um "momento único" algo de surreal, mas não já me belisquei várias vezes.
Só TE tenho a dizer, deves ser como o vinho (não digo que és como o vinho, porque não aprecio este dito nectar dos Deuses), a cada dia (crónica) que passa, vejo que ficas melhor. O fermentar das tuas palavras cativam qualquer um.
Dito isto só espero que nos presenteis com mais e novas Crónicas.
Fico à espera...
Grande amigo:
Os teus comentários e a tua ansiedade face à minha escrita de novas crónicas são sem dúvida bálsamo para o meu coração e um grande apelo para que novas e sentidas aventuras apareçam dactilografadas - acendes a faísca!
A piada está também na premissa de te intitulares um fraco apreciador das palavras, vindo, inclusive, os teus comentários e curiosidade dar provas do contrário.
Conto os dias para a partida... para aquela dita viagem que já engendrámos. Sabes qual é? Para lá de avião, para cá de carro pela estrada fora; estradas essas que não têm fim, que ligam o mundo e o tornam redondo; para saciar estas almas errantes e marginais.
excelente cronica!!para mim a melhor!acho que o teu futuro como engenheiro vai ficar comprometido quando reparares que ja tens cronicas suficientes para lançar um livro...livro esse que vai ser um sucesso garantido!!faco das palavras do silvestre as minhas...és como o vinho...adorei..!abraco
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