sexta-feira, dezembro 24, 2010

Durante Alguns Anos

Caminhava com lentidão e a cada passada obrigava-me a analisar o ano que agora minguava. Esta jornada era insistentemente repetida a cada madrugada deste específico dia, com o frio do solstício a limar as arestas do meu rosto em hino de companhia. Errei, sem destino, um par de segundos ou de minutos e ao dobrar uma ruela avistei-o, alí no chão, encostado a um pilarete. Era uma mancha humana difícil de discernir, embrulhada em farrapos gastos pela ondulação dos dias. Abrandei até paralisar e todo o meu corpo tremeu!

Dei meia volta e fiz o caminho inverso, agora com voracidade que não era minha. Em casa, peguei no que sobrara da ceia, confundido-a e apertando-a entre os braços. Voltei lá, de mansinho, e o corpo continuava imóvel, embora com sinais de vida. Fui-me chegando até ele e arrisquei sentar-me a seu lado. Numa troca de olhares, dotada de sagacidade, dei-lhe o perú, o bacalhau e fiquei a observá-lo, de soslaio, enquanto comia. As palavras naufragavam na tempestade do meu pensamento, não sabiam que há timbre no silêncio ancorado entre estes dois seres. Duas almas, apaixonadamente separadas pela metáfora de duas vidas distintas.

Alí sentado lembrei-me daquela menina com quem andava de mão dada lá na escola. Era a namorada na terra da inocência e caminhávamos sempre juntos, como duas pétalas da mesma rosa. Brotava de um perfume inqualificavelmente jovem, sim porque naquela idade a pele ainda não exigia um perfume de mulher. Os seus olhos refletiam promessas de uma vida escrita a duas mãos, avivadas por um sorriso entre cabelos doirados pelo sol. O seu corpo, tal como o meu, ainda não tinha sido tangido pelas formas perfeitas da adolescência nem as palavras trocadas soavam a canções de união. Esta menina é agora uma mulher e nem sei porque é que nunca mais a vi! Quer dizer, saber até sei mas não sei se justifica...

Também não sei porque é que nunca a beijei... ficarei sem saber o sabor dos seus juviais e inexperientes lábios, salgados ou húmidos, tal como nunca soube porque é que nunca travei uma conversa com aquele homem de rua naquela gelada noite de Natal... ficaram tantas palavras por dizer, encerradas nas curvas da vida... entre as paisagens do mundo vibrando à minha frente...
(24 de Dezembro de 2005)

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

boas as palavras de um bom homem...

quinta-feira, dezembro 30, 2010 7:59:00 p.m.  

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