NÃO SE CONSEGUE FICAR INDIFERENTE
Os anos passam e ela continua sem me passar despercebida. Encontro-a sempre no mesmo local, as horas é que variam e o meu estado de espírito também. Ela sabe o que quer, eu não... Sou eu quem tem de dar o primeiro passo, eu sei. Pegá-la e levá-la a dar uma volta, viajar na sua companhia e tirá-la daquela escuridão. Mostrar-lhe as maravilhas do meu mundo, as conquistas do meu olhar. Tenho a noção de que já não é tocada por ninguém faz muito tempo, a pele que a reveste denuncia-o! E que pele tão jovem! Não consigo palpitar os anos que tem, nem se o seu corpo já sofreu algum embate. E que corpo aquele! De fazer inveja a tantas outras nas mãos de gente que não sabe cuidar.
Ultimamente tenho-a expiado e sorrateiramente imaginado. Desejo mimá-la, acariciá-la, entendê-la e andar com ela debaixo do braço para todo o lado. Quero envelhecer a seu lado, sem nunca a trocar. Julgo que juntos captaremos muitas alegrias, muitas emoções em trânsito, que testemunharão a história de uma vida, da minha vida.
Sonho penetrá-la... naquele jogo de espelhos, procurar a nitidez no fundo do seu corpo, enroscar e desenroscar até fazer “clic”, posições e exposições, sem ruído, sabendo que o segredo para o sucesso estará sempre na luz que absorve, no prazer que tiro daquele instante único entre mim e ela...captar e captá-la.
Ganho coragem, vou agarrá-la! Sou leigo nestas matérias, ela não, muito embora não me possa explicar. Tenho vontade de aprender! Terei de ser eu a descobri-la, desvendando como tudo funciona. Serei paciente ou posso estragar tudo, danos irreparáveis...
Ao tê-la na minha mão sinto uma enorme suavidade e pressinto que já a tivera antes. Aquele diafragma, jogo de lentes, objectivas e alavancas pronta a ser disparada. Tenho nas minhas mãos uma Leica, máquina fotográfica que herdei e não renunciarei.
Adquiro um rolo, vou experimentá-la. Tal como dissera antes, numa era digital, pouco sei deste tipo de máquinas analógicas. Informo-me sobre o preço das revelações, fico espantado. Não interessa! A diferença abissal no custo, face às digitais, é proporcional ao gozo que me dá cada disparo, sendo cada um ímpar, sem clonagens ou antecipações. Não posso apagar nenhuma fotografia, é inevitável. Tão inevitável quanto a insustentável certeza de que cada momento na vida é singular e único, há que agarrá-lo, captá-lo e saber vivê-lo no momento certo...nítido e sublime...
É Sábado, pego nela pela alça e parto errante pelas frestas da aurora. Que destino seguir não sei, nem muito menos sei extrapolar a qualidade do meu olho fotográfico, e até nem interessa. Estava vai ser uma caminhada a dois, com o eco de um cântico nómada a servir-nos de mantinhas, pelas costas. Deambularei até que toda a gula do meu olhar se canse de fotografar ou gravar memórias não reveláveis no papel químico. Tenho como fim agarrar sorrisos à paisana, esculpidos, enigmáticos, apaixonados, vividos, sofridos, joviais e se a capacidade e as pernas ainda me permitirem, roubar uma ou outra paisagem que me invada, num suspiro, com a pujança de uma intervenção divina.
Ultimamente tenho-a expiado e sorrateiramente imaginado. Desejo mimá-la, acariciá-la, entendê-la e andar com ela debaixo do braço para todo o lado. Quero envelhecer a seu lado, sem nunca a trocar. Julgo que juntos captaremos muitas alegrias, muitas emoções em trânsito, que testemunharão a história de uma vida, da minha vida.
Sonho penetrá-la... naquele jogo de espelhos, procurar a nitidez no fundo do seu corpo, enroscar e desenroscar até fazer “clic”, posições e exposições, sem ruído, sabendo que o segredo para o sucesso estará sempre na luz que absorve, no prazer que tiro daquele instante único entre mim e ela...captar e captá-la.
Ganho coragem, vou agarrá-la! Sou leigo nestas matérias, ela não, muito embora não me possa explicar. Tenho vontade de aprender! Terei de ser eu a descobri-la, desvendando como tudo funciona. Serei paciente ou posso estragar tudo, danos irreparáveis...
Ao tê-la na minha mão sinto uma enorme suavidade e pressinto que já a tivera antes. Aquele diafragma, jogo de lentes, objectivas e alavancas pronta a ser disparada. Tenho nas minhas mãos uma Leica, máquina fotográfica que herdei e não renunciarei.
Adquiro um rolo, vou experimentá-la. Tal como dissera antes, numa era digital, pouco sei deste tipo de máquinas analógicas. Informo-me sobre o preço das revelações, fico espantado. Não interessa! A diferença abissal no custo, face às digitais, é proporcional ao gozo que me dá cada disparo, sendo cada um ímpar, sem clonagens ou antecipações. Não posso apagar nenhuma fotografia, é inevitável. Tão inevitável quanto a insustentável certeza de que cada momento na vida é singular e único, há que agarrá-lo, captá-lo e saber vivê-lo no momento certo...nítido e sublime...
É Sábado, pego nela pela alça e parto errante pelas frestas da aurora. Que destino seguir não sei, nem muito menos sei extrapolar a qualidade do meu olho fotográfico, e até nem interessa. Estava vai ser uma caminhada a dois, com o eco de um cântico nómada a servir-nos de mantinhas, pelas costas. Deambularei até que toda a gula do meu olhar se canse de fotografar ou gravar memórias não reveláveis no papel químico. Tenho como fim agarrar sorrisos à paisana, esculpidos, enigmáticos, apaixonados, vividos, sofridos, joviais e se a capacidade e as pernas ainda me permitirem, roubar uma ou outra paisagem que me invada, num suspiro, com a pujança de uma intervenção divina.
