quinta-feira, dezembro 15, 2005

A VOZ DO NATAL

Recordo-me perfeitamente do dia em soube da inexistência do Pai Natal; não tinha mais de cinco ou seis anos, andando na primeira ou na segunda classe. Fora na sala de aulas que o encanto desvanecera, quando toda a turma se encontrava a desenhar cartões alusivos a esta época. Para além de um ou dois colegas, era o único que mantinha a chama acesa, dos poucos com crenças natalícias. Tinha tão belas e irrefutáveis provas da existência do carismático velhinho das barbas - principalmente quando era mais novo, tinha de encontrar porquês e provas para tudo o que via. Chegava a perguntar o porquê do carro derramar óleo, o porquê dos peixes respirarem debaixo de água, nas incontáveis e deliciadas horas que me grudava ao aquário lá de casa; questionava-me sobre a origem do sopro da buzina do automóvel (pedia ao papá para não buzinar mais para que não se gastasse). Relativamente ao Pai Natal tinha mais do que provas da sua presença quando dizia: “tenho um livro do Pai Natal que revela todos os seus mistérios: onde vive, o que faz, retrata os próprios duendes seus amigos que descem à terra para espiar as crianças e descobrir o tão ansiado brinquedo que estas sonham... tenho um livro que revela tudo isto, e os livros não metem...”. Outra das irrefutáveis provas era sem dúvida a presença do Pai Natal em casa dos tios, na noite de dia 24, após o badalar do alto relógio de parede, entrecortado pelo estridente sino pelo qual este velhinho se fazia acompanhar; anunciando a sua chegada. Vinha sempre ter a uma sala de dois andares, permanecia no cimo do mezanino e fazia descer o enorme sacão de prendas por intermédio de uma corda. Nós, as crianças, ficávamos estupefactas a observá-lo, de toque suave e “presenteiro”, sem sequer ousarmos um pestanejar, a desejar que aquela prenda maior fosse a nossa. Ficava até maravilhado com o facto de alguns dos grandes pedidos de Natal serem satisfeitos. Diz-se que quem, durante todo o ano, for bem comportado, terá direito aos merecidos presentes! Como tal, no decorrer de Dezembro tornava-me exemplar, fazia os trabalhos de casa, arrumava o quarto, não dizia asneiras – no fundo quem é que se quer arriscar a merecer uma caixinha de sapatos com desperdícios de papel ou cocó no sapatinho?

Pois bem, existe um WOOD antes e um WOOD depois deste marcante dia, cujos inocentes sonhos deram lugar a um saber. Penso que todos passámos por este dia de viragem, de tristeza impar, de descrença e de despertar para uma nova realidade e para uma nova responsabilidade – a de fazer levar até outras crianças esta magia, perpetuar a fantasia enquanto dormem no segredo desta inocência.

O “novo” WOOD continua a acreditar num Pai Natal, nu~m mais enigmático do que nunca. Este ternurento velhinho é hóspede assíduo cá de casa, começando-se a sentir a leveza da sua presença em meados de Dezembro. Ocupa o quarto lá bem ao fundo do corredor, cuja porta está sempre trancada e é proibido ir lá espreitar. Nunca assume um rosto, sentindo-se a sua calorosa companhia nas pequenas mudanças que se vão verificando neste mês – nos adereços que vão vestindo a casa, no cheirinho a lenha e outros aromas, numa eventual luva ou barrete seus, perdidos num dos compartimentos da casa; nos doces e iguarias ou até num murmurar pouco familiar noutros meses do ano. Cheguei inclusive a pedir ao Fred e à Guga (os companheiros caninos cá de casa) para que, nas horas da minha ausência, fossem servindo de sentinela para mais tarde me relatarem as provas da sua presença. A curiosidade tem vindo a ganhar terreno sobre o cepticismo, e durante este melodioso mês assumo o papel de criança embevecida com sorriso eterno. Citando Urbano Tavares Rodrigues: “O eterno efémero”. Será? Sem dúvida que o é. E o efémero eterno? Curioso duas palavras tão antagónicas completarem-se tão bem e espelharem o prolongamento uma da outra, assumindo uma um estado positivo e a outra um negativo. Mas a qual das duas é atribuída o significado negativo? Depende sem dúvida do contexto. Contudo, no Natal desejo que se atinja a eterna paz e que a fome se torne efémera numa eventual intermitência da sua implacável dose de sofrimento.

Assemelho o Natal a um comboio que parte da Lapónia no início de Dezembro e vem descrevendo uma trajectória irregular ao longo deste mês. Tem por missão dar a volta ao mundo e presentear-nos com as mais belas coisas da vida, alheias aos bens materiais. Sendo de graça; essas maravilhas vão-se associar aos cinco sentidos e bafejar-nos a todos. Nunca se atrasa, efectuando paragem em todas as estações e pelo caminho vai recolhendo passageiros. Todos querem subir a bordo e há de facto espaço para todos. Mal oiça o eco da sua passagem, vou eu também entrar na engrenagem e juntar-me aos outros passageiros; nunca sem antes relembrá-lo do meu recorrente pedido de Natal. Pedido esse que já tem vindo a ser formulado desde os meus primeiros anos de inocência e que o Pai Natal nunca conseguira trazê-lo até mim. Tinha inveja dos que já tinham esse presente. Ainda hoje a tenho! Pois bem, portei-me bem todo o ano, amei e foi contemplativo para com os outros, fiz sempre os trabalhos de casa, só digo uma a duas asneiras por semana. Ou será por dia? Já estou preparado, já calcei as luvas e agasalho, já pensei nos inumeráveis bonecos de neve. Assim sendo, aqui vai mais uma vez, pela vigésima quarta vez te peço Pai Natal que me tragas um insustentável NEVAR em Lisboa, imaculado e fofo na pureza da sua brancura...
Desejo a todos os leitores e amigos um radioso Natal**********

quarta-feira, dezembro 07, 2005

O REI PESCADOR E O BAPTISMO DE MAR


Fui finalmente mergulhar com o amigo Silvestre; aquele que me orgulho de apelidar de o rei pescador, senhor do mar, transpirando sal por todos os poros. Este velho amigo cumpre todas as semanas o ritual da caça submarina, sendo bruxas a sua principal presa.

Iniciou-se o aquecimento na garagem do rei, onde elasticidade e fôlego para vestir o fato são mais do que requisitos para se enveredar no mergulho. Enquanto o Silvestre ia preparando o material, elucidava-me sobre o facto de ser de extrema importância molhar os fatos e besuntá-los com champô; segredos desnecessários em material de surfe. Equipámo-nos ainda na garagem: fato, máscara e tubo, luvas, botas, barbatanas, lanterna, cinto de pesos, rede para as bruxas, coração quente e expectante e estávamos preparados para enfrentar o frio metálico que se fazia sentir numa noite de Novembro. Totalmente envoltos em neoprene, saindo da garagem num carro preto ao bom nome dos “Men In Black”, trocando os Ray Ban pela salgada máscara; imaginava-me a acenar para carros alheios, nos eventuais semáforos pelos quais passássemos.

Foram várias as vezes que fiz snorkeling, variadas as vezes que senti a areia fria massajando-me os pés, inumeráveis as vezes que senti os rastos das lágrimas do mar escorrendo-me pelo corpo, mas nunca juntara todos estes condimentos numa única noite. Isto para dizer que se tratava do meu baptismo de mar, baptismo de mergulho, baptismo de caça submarina.

Sentia-me o Robocop com um cinto que me garantia mais oito quilos, um fato de 7mm de espessura (muito além do meu velhinho 3x2 mm), barbatanas com quase um metro. Felizmente voltava a ganhar mobilidade, no mar, porque todo este material é feito para o mar e o material tem sempre razão! Há que cuspir sobre as lentes da máscara para que jamais se embacie e já com todos os “gadgets” salgados, fui seguindo o rei na penumbra da ofegante noite; entrecortada pelo foco emitido pela lanterna, refractando mar adentro. Dar à barbatana, empunhar a lanterna na mão esquerda, buscar o oxigénio por intermédio de uma espiral de um centímetro de diâmetro, observar por entre 1mm de vidro os corais que se aproximavam, os peixes que tonificavam as profundezas e... acima tudo ouvir o silêncio! Sentia uma companhia invisível, provavelmente o pulsar das marés ou quem sabe a adrenalina que fulminava dentro de mim, desvendando o esplendor marinho! O mar jogou por vezes com o meu corpo, arremessado sem piedade contra as rochas. Era ai que ouvia a nasalar voz do rei: “Não te preocupes, o mar quando bate, cava, entre ti e os rochedos, uma espécie de “air bag”. Quanto ao rei, ficava maravilhado com a sua destreza, familiaridade com o fundo do mar, conhecendo todos os orifícios cravados nas rochas. No prolongamento dos seus pulsos, as mãos fundiam-se em tenazes, sacando todos os habitantes submersos... era encantatório aprender com o domador da vida aquática.

Após três molhadas horas, deram-se as braçadas de regresso à costa que lentamente se avistava, fazendo-me lembrar um memorável desembarque à James Bond, oculto na escuridão. Depois seria simplesmente despir o fato, submergindo um imaculado smoking do seu interior; olhar para o relógio de pulso, entrar numa restrita festa e ir directamente buscar um vodka-martini para saciar a sede do herói quando, num piscar de olhos, fizesse o lance à Bond Girl.

Os verdadeiros heróis têm um desembarque mais humilde, mais salgado à priori, frio mas quente de emoção. Não se livram do equipamento e por baixo do fato transparece tão lúcida e arrepiada pele humana. E por baixo da pele? Bom, por baixo da pele estes dois carismáticos retêm as recentes molhadas memórias que jamais secarão.

Como resultado da caçada, o rei apresentava-se com duas redes à cintura, repletas de marisco (uma com bruxas, a outra com navalheiras) e eu com uma simples estrela do mar numa das redes. Fui mero observador e seria de estrema audácia tomar o lugar do rei; seria o mesmo que colocar o Silvestre a escrever estas frases – impróprio para o “Action Man”! Para além disso obtive, como cicatrizes de guerra, um inchaço no sobrolho direito e surdez provisória de um dos ouvidos (ainda passados dias a tenho).

E o que se pode concluir deste mergulho? Reformulo a pergunta: um tipo vai para o mar, nada de uma costa à outra. Quimicamente falando o que se pode concluir? Eis uma das perguntas que saíra num exame de Química do meu pai, formulada por um professor do IST. Professor muito contestado e controverso cujas perguntas apareciam anualmente na televisão.

E que destino teve este marisco, ainda vivo nas redes do possante “action figure”? As navalheiras, por serem marisco plebeu foram para o nosso estômago, no jantar dessa mesma noite, bem regadas com cerveja. E as bruxas – como “fait diver” da opulência - foram parar aos viveiros de um restaurante de elite.

Sei que o Silvestre tem um enorme coração, com dimensões maiores do que o normal - bombeia com o dobro da força do meu. O rei costuma brincar dizendo que padece de amor em excesso! Ele sabe amar e também sabe a mar. Sabe amar a natureza, sabe amar os amigos, sabe amar o ser humano - fiel e activo doador de sangue e de medula – quando me diz: “Não há melhor do que salvar uma vida. Saber que posso até prolongar a vida do desconhecido...”. Quanto custa uma vida? Quanto custa ajudar a prolongá-la? Encontra no mar um partido, uma dependência e uma terapia. Quando vai para o mar, seja quando estão a entrar alucináveis e abissais ondas para o seu bodyboard kamikaze, ou quando o busca para o seu mergulho ou até mesmo quando me telefona para irmos tão simplesmente espreita-lo naqueles tempestuosos e nublados dias; sente e sabe que o Mar é um amigo a lidar com respeito. Conhece a sua natureza muito embora eu comece a suspeitar que, como filho pródigo do Mar que é; já lhe estejam a crescer guelras e até, talvez um dia, lhe seja permitido caminhar sobre o mesmo. Caminhá-lo-ei contigo meu amigo.

Palavras do rei: “Tudo muda mas certas coisas ainda são como eram. Nos tempos modernos ainda encontramos alma portuguesa... no mar. Sonhar é bom e recomenda-se - partir à descoberta de que afinal o mundo não é tão grande quanto julgamos”. Eu partilho da opinião do Silvestre pois penso que a alma portuguesa estará sempre ligada ao mar, afinal somos uma centelha no culminar desta Península, ladeados por mar, cujas raízes estar-lhe-ão sempre associadas. No passado, vinculados pela prosperidade que este trazia, no passaporte para novos horizontes. O próprio sal que o salga, que noutros tempos era usado como moeda de troca, como método de conservação de peixe. No presente, a relação simbiótica que cada vez mais se vê travada com este gigante, o crescente número de desportos e passatempos dependentes do mar. Somos sem dúvida filhos do mar, os mais Atlânticos deste pai. Sempre que procuro abrigo para reencontrar o meu estado de alma, busco no mar a força que perdera... Sento-me no rochedo onde este bata com mais bravura, contemplo-o e entrego-me ao seu sabor, gritando-lhe: “Eis o teu filho, o Príncipe das Marés!”... depois, deixo-o actuar sobre mim...


Como o rei costuma dizer, após uma pescaria: "Tá carregadinho!"

De regresso à garagem para um "Happy End"no levantamento do peso. Custa muito mais tirar este fato do que colocá-lo. Apeteceu-me rasgá-lo como o fazem as Miss T-Shirt Molhadas! Quanto ao banho de água doce surgiam duas opções: ou mantinha o ritual de deixar a água do mar a exercer o "banho de maria" por umas horas ou tomava-o na própria noite. Escolhi a segunda hipótese pois não surgiu nenhuma Maria na banheira e ao mesmo tempo livrei-me da constipação! Enfim epopeias...dilemas dos homens do mar...

Nota: Resposta à pergunta de Química – tão simples como: matéria orgânica não é solúvel na água.
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