TANGO...TANGO...TANGO...TANGO
Retraem-se as luzes, ao fundo Gardel canta baixinho, ouvem-se os sussurros das mulheres que sentadas esperam um convite para se lançarem à pista. Só com um olhar ela percebe que a quero, pousa o copo de vinho, levanta-se, pausadamente, desliza pelo soalho antigo, o vestido colado ao corpo, os seus olhos penetram os meus… Um abraço forte, quente, encosta o peito dela ao meu, que lateja ao adivinhar a comunhão que se aproxima, dois corpos num só, a sensualidade enche a sala, enche o meu coração, e voamos ao som compassado da milonga.
Lá fora chove. As gotículas que entram pela janela entreaberta dissolvem-se nas lágrimas de lentidão que descem pelo meu peito. A paixão e o suor confundem-se e fundem-se, e por baixo da sua camisa listada sinto um coração que treme… O som da sua respiração entranha-se nos cabelos meus que sinto nas costas nuas, e logo abaixo a mão dele, quente, fria, minha…
É o meu quarto dia em Buenos Aires e a primeira noite em que arrisquei sair. Queria pôr à prova o meu tango por necessidade de o respirar e beber. Vestido a rigor, bigode e pêra aparados, água-de-colónia e uma vontade infinita para seduzir. Tive sorte, parece que a encontrei…noite, possibilidade e ansiedade… Dançando passo a passo, face a face, percebo que o seu corpo responde, em total harmonia, aos estímulos do meu. Procuro-a no olhar e faço-a girar sobre mim. Sinto um formigueiro que me invade e um suor unindo a nossa pele. Nunca a música fez tanto sentido, adornada pelos contornos dela no prolongamento dos meus.
Na pista, cruzam-se silhuetas e vestidos carregados de vida. Em redor, nas cadeiras e mesas espalhadas ao acaso, reparo que nos observam. Senhoras faustosas com leques em tom de sedução e cavalheiros empunhando copos que lhes permitem saldar um convite para dançar. Respira-se um ar quente que nem mesmo as vetustas ventoinhas, suspensas no tecto, conseguem dissipar. A música é propagada para o exterior, muito embora a magia do lugar desapareça, como o eco, nos rostos anacrónicos de quem passa lá fora. Morrem por não conseguirem adivinhar o calor daquela estridente noite e até lhes peço que permaneçam na escuridão. Esta é uma noite para quem pede paixão, para quem procura um amor musicado. A música termina, olhamo-nos demoradamente para logo nos abraçarmos de novo ao som de uma música que nos chega do outro lado do oceano. Um fado… A entrega é agora ainda mais profunda. A minha perna sobe pelo seu corpo, depois roça a cortina de veludo que marca a fronteira da pista.
E quando a tanda chega ao fim demoramos a largar o corpo um do outro. Na varanda molhada pela chuva de Verão, banhada agora por uma lua quente, acendo um cigarro. Ela dirige-se para junto das outras mulheres. Senta-se, entreolham-se, e nenhuma precisa dizer o que todas adivinham: pelo tango começou uma estória de amor, uma estória de vida…
Lá fora chove. As gotículas que entram pela janela entreaberta dissolvem-se nas lágrimas de lentidão que descem pelo meu peito. A paixão e o suor confundem-se e fundem-se, e por baixo da sua camisa listada sinto um coração que treme… O som da sua respiração entranha-se nos cabelos meus que sinto nas costas nuas, e logo abaixo a mão dele, quente, fria, minha…
É o meu quarto dia em Buenos Aires e a primeira noite em que arrisquei sair. Queria pôr à prova o meu tango por necessidade de o respirar e beber. Vestido a rigor, bigode e pêra aparados, água-de-colónia e uma vontade infinita para seduzir. Tive sorte, parece que a encontrei…noite, possibilidade e ansiedade… Dançando passo a passo, face a face, percebo que o seu corpo responde, em total harmonia, aos estímulos do meu. Procuro-a no olhar e faço-a girar sobre mim. Sinto um formigueiro que me invade e um suor unindo a nossa pele. Nunca a música fez tanto sentido, adornada pelos contornos dela no prolongamento dos meus.
Na pista, cruzam-se silhuetas e vestidos carregados de vida. Em redor, nas cadeiras e mesas espalhadas ao acaso, reparo que nos observam. Senhoras faustosas com leques em tom de sedução e cavalheiros empunhando copos que lhes permitem saldar um convite para dançar. Respira-se um ar quente que nem mesmo as vetustas ventoinhas, suspensas no tecto, conseguem dissipar. A música é propagada para o exterior, muito embora a magia do lugar desapareça, como o eco, nos rostos anacrónicos de quem passa lá fora. Morrem por não conseguirem adivinhar o calor daquela estridente noite e até lhes peço que permaneçam na escuridão. Esta é uma noite para quem pede paixão, para quem procura um amor musicado. A música termina, olhamo-nos demoradamente para logo nos abraçarmos de novo ao som de uma música que nos chega do outro lado do oceano. Um fado… A entrega é agora ainda mais profunda. A minha perna sobe pelo seu corpo, depois roça a cortina de veludo que marca a fronteira da pista.
E quando a tanda chega ao fim demoramos a largar o corpo um do outro. Na varanda molhada pela chuva de Verão, banhada agora por uma lua quente, acendo um cigarro. Ela dirige-se para junto das outras mulheres. Senta-se, entreolham-se, e nenhuma precisa dizer o que todas adivinham: pelo tango começou uma estória de amor, uma estória de vida…
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Dança a quatro mãos e dois corações por Joana R. e Pedro... primeiro vê-se o som e depois ouve-se a luz...continua a tangar!
