sábado, junho 21, 2008

TANGO...TANGO...TANGO...TANGO

Retraem-se as luzes, ao fundo Gardel canta baixinho, ouvem-se os sussurros das mulheres que sentadas esperam um convite para se lançarem à pista. Só com um olhar ela percebe que a quero, pousa o copo de vinho, levanta-se, pausadamente, desliza pelo soalho antigo, o vestido colado ao corpo, os seus olhos penetram os meus… Um abraço forte, quente, encosta o peito dela ao meu, que lateja ao adivinhar a comunhão que se aproxima, dois corpos num só, a sensualidade enche a sala, enche o meu coração, e voamos ao som compassado da milonga.

Lá fora chove. As gotículas que entram pela janela entreaberta dissolvem-se nas lágrimas de lentidão que descem pelo meu peito. A paixão e o suor confundem-se e fundem-se, e por baixo da sua camisa listada sinto um coração que treme… O som da sua respiração entranha-se nos cabelos meus que sinto nas costas nuas, e logo abaixo a mão dele, quente, fria, minha…

É o meu quarto dia em Buenos Aires e a primeira noite em que arrisquei sair. Queria pôr à prova o meu tango por necessidade de o respirar e beber. Vestido a rigor, bigode e pêra aparados, água-de-colónia e uma vontade infinita para seduzir. Tive sorte, parece que a encontrei…noite, possibilidade e ansiedade… Dançando passo a passo, face a face, percebo que o seu corpo responde, em total harmonia, aos estímulos do meu. Procuro-a no olhar e faço-a girar sobre mim. Sinto um formigueiro que me invade e um suor unindo a nossa pele. Nunca a música fez tanto sentido, adornada pelos contornos dela no prolongamento dos meus.

Na pista, cruzam-se silhuetas e vestidos carregados de vida. Em redor, nas cadeiras e mesas espalhadas ao acaso, reparo que nos observam. Senhoras faustosas com leques em tom de sedução e cavalheiros empunhando copos que lhes permitem saldar um convite para dançar. Respira-se um ar quente que nem mesmo as vetustas ventoinhas, suspensas no tecto, conseguem dissipar. A música é propagada para o exterior, muito embora a magia do lugar desapareça, como o eco, nos rostos anacrónicos de quem passa lá fora. Morrem por não conseguirem adivinhar o calor daquela estridente noite e até lhes peço que permaneçam na escuridão. Esta é uma noite para quem pede paixão, para quem procura um amor musicado. A música termina, olhamo-nos demoradamente para logo nos abraçarmos de novo ao som de uma música que nos chega do outro lado do oceano. Um fado… A entrega é agora ainda mais profunda. A minha perna sobe pelo seu corpo, depois roça a cortina de veludo que marca a fronteira da pista.

E quando a tanda chega ao fim demoramos a largar o corpo um do outro. Na varanda molhada pela chuva de Verão, banhada agora por uma lua quente, acendo um cigarro. Ela dirige-se para junto das outras mulheres. Senta-se, entreolham-se, e nenhuma precisa dizer o que todas adivinham: pelo tango começou uma estória de amor, uma estória de vida…
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Dança a quatro mãos e dois corações por Joana R. e Pedro... primeiro vê-se o som e depois ouve-se a luz...continua a tangar!

quarta-feira, junho 04, 2008

A ESPERA II

Dois corpos, tão próximos ou tão afastados quanto a dúvida está da certeza. Ela sente os pés dormentes, depois as pernas, formigueiro este que caminha em sentido ascendente, dominando-a. Existe uma pausa e o formigueiro instala-se na sombra da sua nuca - uma bomba de suspiros, uma revolução de incertezas e expectativas.

Olha-o bem nos olhos, já sem o escutar e espera, inerte, que ele avance. O momento é propício. As mãos dele tocam-lhe o rosto, acariciam-lhe o volumoso cabelo negro. Tenta não pestanejar para que não padeça naquele instante em que lhe é permitido ancorar-se às emoções. Quer acelerar o processo e estendê-lo no refrão mas o seu corpo e mente parecem marionetas nos braços deste homem.

Os seus húmidos lábios anseiam por aquele beijo. Esperam a fatal união, ensaiada em tantas noites. Quer sorver aqueles lábios e senti-los - carne com carne! Ela sabe que o primeiro beijo dita tanta coisa, retribuindo-lhe a indubitável certeza de que este homem é o tal.

Toda ela treme, respira com a genica dos dois pulmões e espera uma vez mais por ele. Não tem coragem para avançar e, de mente encantada com o turbilhão de emoções, nem se apercebe do respirar dele, também ele ofegante.

Ele aproxima-se com vagar hesitante por estar a avançar em terreno desconhecido no chão que ela pisa. Dissolvem-se os odores de ambos, as sombras assumem uma escultura indecifrável, mãos unidas e peitos encostados, arquejantes, lábios trémulos, o dele, o dela no indefensável magnetismo…e por fim o beijo surge numa união de facto…e o tempo esquiva-se, não quer passar por ali…

A cortina cai, a plateia aplaude, erguendo-se em tom de total rendição e ouvem-se os assobios… “bravo”, “encore”… “bravo”…

A ESPERA

Ele procura um sinal dela. Espera pela carta que não recebe nas palavras que foram apenas escritas na mente dela, aprisionadas e atiradas ao vento…

Espera por um telefonema. O telemóvel não toca nem vibra e quando toca ou vibra assusta-se e o coração estremece e rejuvenesce um pouquinho… mas nunca é ela…

Ele conta os minutos, contas as horas e os dias sem rasto. Sente a falta dela como se de uma perna amputada se tratasse, não havendo dia ou noite em que não sinta uma cãibra, uma dor, uma cócega no tal membro que já não lhe pertence. É como se sente sem ela, sentindo-a onde esta já não se encontra. Vê-a sempre que resolve fechar os olhos, fechando-os sempre que se sente só.

Uma dúvida ou esperança pairam no ar – pergunta-se se ela por vezes divaga. Se sente saudades dele. Se alguma vez digitou o seu número, cancelando de seguida a chamada. Se já visitou a sua morada ou se deixou a tal mensagem por enviar, aquela inacabada, reticente e hesitante como o espelho da respectiva alma naquele instante. Será que ela ainda se lembra dele? Será que certas músicas, lugares, aromas, gestos, pessoas, ideias ainda a fazem recordar-se?

Se ele ao menos soubesse…ou suspeitasse o fluxo de sentimentos encarcerados no redutor coração dela. Se ao menos adivinhasse! Talvez não preenchesse os dias de incertezas, a luz de escuridão e a pele de sofrimento…

Já recapitulou e rescreveu todos os momentos vividos, todas as caminhadas a dois, todas as passadas feitas de amor. É um livro que conhece bem, que não quer aglutinar na erosão do tempo…

Fecha novamente os olhos, faz um convite ao sono para a buscar no último lugar que partilham. Ela surge, com formatação radiosa, apaixonante e, com um abraço intemporal, resgata-o da solidão. Estão finalmente juntos, um corpo, dois corpos, vacinados onde o sentimento habita, sonho ou realidade…
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