Esta mulher funde-se diante do espelho, num quarto de banho de um escritório. Está no local de trabalho, a meio da tarde e os tácitos minutos germinam em horas.
Aquele espelho reflecte uma bela mulher, de traços cândidos e serenos, brunidos e afagados no paraíso. A vaidade toma posse do espaço e a perfeição maravilhosa deste ser é moldada em todas as torneiras e lavatórios, portas e fechaduras, azulejos e tectos. Existe uma luz celestial que trespassa a clarabóia e se divide em três, refractando espaço adentro, incrementando vida às directrizes inertes.
Ela redesenha cada olho como se de um Klimt se aproximasse. A suavidade de cada gesto traduz o que lhe vai no interior, apostando em cada face ou curva como se de uma meiga festa a um bebé se tratasse. O “blush” é sedosamente pigmentado nesta efusiva pele imperial e os contornos das maçãs implicitamente adornados e avivados.
Querido leitor, não será difícil fazer-se acreditar de que estamos diante de uma princesa dos tempos modernos, sonhada e esculpida pelas mais fabulosas mentes, mãos e corpos de dois artesãos que a fizeram num amor marejado de lágrimas doces. É o epíteto de um sonho real...
Aproxima os lábios do espelho e produz um beicinho tão característico seu. Beija a palma da mão esquerda com ternurento amor, soprando de seguida o beijo em direcção ao seu “eu” reflectido no espelho. Adora a mão esquerda porque esta é o fio condutor! Depois sorri, sorri muito e beija, com um meloso pestanejar, todos os átomos e iões que formam a matéria que a envolve.
Nessa mesma manhã deleitou-se, com lentidão, diante de um outro espelho, mais pessoal e familiar. Espelho este que a conhece como um pai que acompanha a própria filha desde o primeiro choro e banho ao primeiro gatinhar, ou mesmo do primeiro dia de escola ao primeiro desgosto amoroso... Um espelho mágico que a abraça ao acordar, não se assustando com a figura que irradia, despenteada, sonolenta e bocejante. Não será de todo exagerado informar que todas as possíveis superfícies de reflexos simpatizam com este ser, incluindo água, vidros, espelhos, bolas de Natal, íris e pupila humanas ou animais...
Este objecto paternal habita no quarto desta mulher, ressurgindo-lhe na segurança matinal ou mesmo diária, revestido de madeira maciça, equiparado a uma janela, refractando toda a amplitude do quarto. Através dele, é espelhada uma cama pouco vincada, sem os resquícios de uma noite bem dormida, sobre a qual jaz um arco-íris de roupa aleatoriamente desarrumada - peças de vestuário figurando na indecisão daquela mulher. São de facto a prova de um coração descompensado, indeciso mas muito vivo, que embora não encontre o tal vestido que vista o seu estado de espírito, sabe bem o que sente e quer… tendo sido inúmeras as passagens de modelo na incessante busca da perfeita indumentária. Por entre este espelho é ainda possível observar-se uma mesinha de cabeceira com um jarro de orquídeas, flores estas tão frescas quanto a aurora, acompanhadas por um plácido cartão que diz: “Põe-te bela esta noite! Leva contigo este bilhete e deixa a música actuar sobre ti! Um beijo do teu maestro sentimental”.
De regresso ao primeiro espelho (aquele no quarto de banho do escritório), esta mulher observa-se com iluminada sedução, penteia-se e relembra aquele dia de forma saudosista. Dia este que marcou para sempre o resto da aventura. Era um dia quente de Primavera, em que a tórrida atmosfera aparecia esbatida no compasso da fila de trânsito em que esta mulher se encontrava, numa rua saturada de automóveis. Estava irritada por se ter esquecido dos óculos de sol que tanta falta lhe faziam, procurando toldar a face com a pala do carro mas o sol era teimoso e enganador! Restava-lhe apaziguar-se com a veemência dos raios solares e acompanhar a fila com a carência de visão. Com tanta luz sentia-se na cega escuridão, exceptuando escassas figuras que lhe surgiam por entre a esfusiante neblina iluminada. No pára e anda teatral, num fragmento de pausa completamente mudo, circunscrito de iluminação, escutando o vibrar do silêncio, acabou por lhe emergir uma imagem que se destacava da composição. Não pôde deixar de olhar, arregalando os olhos hipnotizados com bafejado espanto e viu uma mão esquerda que gesticulava numa dança de predilecção. Instigada por tal aparição, procurou a fonte de tal inspiração, cerrando os olhos que lhe intensificaram um vinco na testa. Com esforço e persistência acabou por se aperceber de que era a mão do condutor que tomava a sua dianteira, sorrateiramente solta por entre o vidro totalmente aberto. Era uma mão de uma beleza tremendamente invulgar, com dedos artisticamente afilados e, muito embora, revestida por músculos muito rígidos e tonificados… bronzeada e enfeitada por unhas eficazmente redesenhadas. Falanges, falanginhas e falangetas magistralmente articuladas, trespassadas pelos raios solares.
Esta mulher não conseguiu ficar indiferente a tão encantatória escultura e observou aquela mão até à exaustão. Foi-se apercebendo dos sedosos detalhes, com surpresa constantemente renovada até pelo brilho a que remetia o seu olhar. Era uma mão fabulosamente única, tão expressiva quanto sedutora…
A mão paralisou-se repentinamente, parecia esgotada, inerte sobre a janela do veículo e aquele instante pausado parecia não ter fim aos olhos ansiosos desta mulher. Um fragmento de segundos eternos e um coração com um pulsar tão feminino quanto expectante! Depois, esta mão voltou-se a erguer, ainda mais eloquente, ecoando vida por todos os poros, vincos e articulações. Estremeceu, fechou-se em punho mas sem qualquer hesitação voltou-se a abrir. Descreveu uma hipérbole, nervosa de paixão. Arqueou-se e soltou-se como se de um animal felino se tratasse. Ressurgia vida, animal e humana, rasando todos os gestos de uma alegoria às sombras chinesas.
A mulher palpitava sobre o que estaria a decorrer naquele carro. Na sua mente surgiam inúmeras suposições, caso aquele homem estivesse a discutir com outro ocupante do veículo. Ou será que estaria tão simplesmente a acompanhar a balada de qualquer canção? Se assim fosse não seria certamente uma melodia qualquer que avivaria aquela mão com força que não era sua, rasgando o ar e abalando o impenetrável… seria então um maestro? Conduzindo, não somente o automóvel mas também a tal música que ficava por rescrever no seu imaginário.
A curiosidade tomava cada vez mais o lugar cimeiro, antes de todas as ideias que esvoaçavam num tal lugar denominado mente. Esta mulher já não procurava resistir a esta mão febril e no vaivém de malabarismos bailados desejava ver o rosto do homem por trás da máscara, ver a figura a quem pertencia aquele hipnótico membro. Procurava o seu reflexo nos variados espelhos do veículo à sua frente. Ainda avistou um olho, embora tingido pelos raios solares e daquele ângulo traseiro tudo parecia insatisfatoriamente distante e esbatido.
Tomada por uma frenética ansiedade, tentou arrematar pela outra faixa e abalroar todos os automóveis. É sabido que uma mulher à beira de um escaldante estado de curiosidade é mesmo capaz de matar! Conteve-se e esperou por uma fresta entre a procissão. Ziguezagueava em vão e o veículo retraía-se na mesma posição. Não pretendia desistir e o lume que lhe alimentava as veias era teimosia de uma estóica. O volante já nem respondia aos seus estímulos, os travões fintavam os seus pés, os olhos penetravam ao sabor daquela mão e o sol era amigo da desordem… patinando sobre o asfalto, acabando por bater no veículo da frente. Incrédula e tomada por um sentimento de vergonha nem queria acreditar no que o seu subconsciente pincelara e proliferara.
A fabulosa mão parou suspensa no ar, abriu a porta, avistando-se primeiro um pé e depois o outro, umas pernas, uma cintura e um tronco e por fim um rosto. Esta mulher, submissa na vergonha, esgueirou-se entre o volante e o banco, rastejando para o fundo do carro. Ouviu o soar de uma passada lenta, calma e tranquilizadora na sua direcção. O coração desta mulher rufava como um tambor e muito embora a curiosidade a tomasse de assalto, permaneceu escondida.
Ouviu uma estridente pancadinha no vidro lateral e já não podendo mais evadir-se, ergueu-se tão curiosa quanto assustada! Fez deslizar o vidro para que melhor observasse o rosto a quem pertencia aquela inigualável mão, agora sem filtros ou murmúrios solares.
A mulher perdeu a fala. Este homem apresentava uma cara de uma beleza tremendamente única, trepidantemente apaixonante. Um nariz e uns olhos nas imaginarias proporções energéticas, sendo o prolongamento daquela singela mão. Uma tez e uma leveza na expressão facial. Uns lábios que buscavam uma voz que pronunciava as palavras detractoras de toda uma nova fantasia, lançando mais uns pozinhos de prelim-pim-pim em direcção àquela mulher que já estava há muito em estado de hipnose! Fê-la sair do carro e assegurar-se de que não corria qualquer risco. No fundo, aos olhos deste homem, esta mulher estava em estado de choque.
Incapazes face aos buzinões e uma vez que o tráfego voltara a fluir, decidiram tratar da papelada num local mais convidativo, isto ao abrigo de uma sugestão feminina. Encontraram um café perdido ao acaso, numa rua transversal e após uma distraída observação de ambos os veículos aperceberam-se de que os danos eram colossais – nada que um novo pára-choques, uma nova grelha ou uma nova pintura não voltassem a conferir os contornos a ambos os veículos. Numa dupla gargalhada, ambos pediram bebidas (quais? São meros pormenores e deixo ao leitor imaginar).
Quem observasse aqueles dois seres, envoltos em cúmplices sorrisos, estaria longe de imaginar o que capitulou este encontro!
Aquela mulher estava completamente rendida a este homem. Saboreava cada palavra saída de tão ternurentos lábios. O coração perdia-se sempre que os olhos de ambos se cruzavam mas, na firme tentativa de jamais abrir a guarda face ao fluxo de sentimentos que floresciam como foguetes, procurava naufragá-los à vista dele. No fundo, era o brilho no olhar que a traía! Com os olhos totalmente expostos naquele ser, seguindo cada gesto das imaculadas mãos deste e dilatando a cada nova pausa ou investida. Mal sonhava ela o crepúsculo de emoções que também corriam nele como um rio, desaguando sem descanso…
A noite caía e com ela as obrigações. Trocaram os contactos na certeza de se voltarem a ver. Esta noite terminava aqui, ambos com compromissos ou fazendo o outro acreditar que sim. Ela, com uma enorme vontade de permanecer enfeitiçada mas, retrocedendo sabiamente face ao desejo. Muito embora não tivesse quaisquer planos para essa noite, e por mais vontade que tivesse em continuar a conhecer o seu feiticeiro, não se queria mostrar assim tão oferecida. Jogo de mulher! Ele, embora muito astuto, como bom homem e sempre primário, procurava alastrar os minutos na tentativa de a embalar para um irrefutável jantar, abrandando o passo ao aperceber-se da jogada desta.
Despedem-se por fim… ela volta ao carro com uma enorme vontade de o ter beijado, de o ter agarrado naquele momento e fugirem sem destino. Teme que ele nunca lhe venha a ligar, o medo dessa veracidade assalta-a. Fecha a porta do carro mas não segue marcha. Permanece ali e observa o carro dele ao descrever uma curva, sumindo-se na escuridão… Num suspiro, a curiosidade volta a invadi-la - ao fim de tantos dedos de conversa ficou sem saber qual a música que aquela mão compunha ou dirigia - Mordisca o lábio e passados alguns segundos agarra impulsivamente o telemóvel, procurando o nome dele. Carrega no verde e logo após no vermelho. Detém-se num suspiro, ri-se e deixa que seja ele a ligar-lhe. Afinal sempre pode esperar mais uns dias, afim de matar a curiosidade e lhe sacar aquele beijo que ficou por dar…