quinta-feira, outubro 27, 2005

QUEIMA 2005 – QUANDO O CALOIRO SAI À RUA EM DIA DE CORTEJO

Esta aventura tem sensivelmente seis meses, muito embora se trata de um acontecimento intemporal e não mediático, e como tal passível de ser relatado ao fim de tantos dias.

Antes de começar a escrever esta crónica artilhei-me com uma velhinha garrafa de Porto Ferreira, na expectativa de viajar até ao dia que vos relato, acompanhando-me esta até que o último hieróglifo preto seja criteriosamente estampado no branco. Atenção, pretendo apenas saborear o gosto do Norte, mantendo-me sóbrio; contrastando com o ritmo do dia em questão.

Pois bem, no ano 2000 conheci, entre muitas outras maravilhas, o gosto pelo Porto e pela queima das fitas, cidade que aprendi a amar. Na tentativa de não falhar uma, em especial no dia do cortejo; este ano cumpri mais uma vez penitência ou não fosse eu um devoto fiel para a minha Meca.

De onde surgiu a palavra queima? Para um bom ignorante lisboeta palpita a familiaridade com queimar o cérebro. É isso e muito mais, uma festa para todos: quer se trate de caloiros, finalistas de cartola e bengala, ou quem se encontre a um ano do fim do curso, envergando a máscara de morcego, aos saltos nos carros alegóricos ou ainda gente simples como eu – um carismático penetra sem cores académicas. Queimar a fita é um simples gesto, não aconselhando que o levem à letra!

Queima não é queima sem um belo almoço, em boa companhia, onde singre a inigualável boa disposição e implica que seja realizado já no calor do barulho, mesmo em cima do acontecimento. O nosso surgiu na rua do Palácio de Cristal, numa tasca que até então desconhecia. O vinho martelo preparou-nos e anestesiou-nos para toda a temporada, voando o batalhão de seguida para o cortejo.

Com uma vasta comitiva de amigos é sempre difícil manter a união, tendo eu e o Lamy sido os primeiros a largar o barco, na busca do WC. Em vez de chorarmos a separação, misturamo-nos no carnaval fora de época, começando a espalhar fantasia. Fui, à priori, assediado e despenteado por uma dúzia de esfomeadas “babes” que, na altura, julguei serem belas e formosas - os milagres do vinho martelo deram-me asas!

O “flash” seguinte de que me recordo foi reencontrar o meu grupo para um novo almoço. É sabido que qualquer amigo do álcool preza ter mais do que um almoço, noutros casos esquece-se de que tomou o primeiro. Francesinhas para camuflar o estômago e nova garrafa de tintol para aquecer a mão e... siga para bingo! Na altura era já apelidado de “o havaiano” e voltando-me a desencontrar, perdi o ex-libris - o grande emplastro! Há dois anos estivera com ele numa outra queima, numa outra circunstância, no instante em que estava a ser levado em braços, após me atirar da carrinha da FEUP para a multidão. Acreditem, o emplastro queria-me dar um chocho! Desta vez, referindo-me à queima de 2005, o emplastro empunhava um boneco que afirmava ser o Pintinho da Costa, enquanto lhe dava fervorosos e apaixonados beijos.

Sempre tivera uma enorme vontade de subir para uma daquelas carrinhas alegóricas, enfeitada com moribundos morcegos. Estava determinado a cumprir o sonho e para o conseguir, pulei para uma delas à força. Já lá de cima comecei a praguejar que procurava a minha amada, esperando que fosse mais do que motivo suficiente para que deixassem o Rei em paz... assim o fizeram!

Foram incontáveis as vezes que passei em frente à tribuna da câmara onde, firme e hirto, se encontrava o Ruizinho Riozinho. Isto agora para os não portuenses: Os caloiros só deixam de o ser uma vez que passem em frente à tribuna onde, o presidente da câmara lhes dá clemência enquanto se agacham; sendo aqui que termina o cortejo. Eu, neste dia, fui e deixei de ser caloiro um inenarrável número de vezes; não queria que a festa terminasse!

Voltei a encontrar o Botto, agora mascarado com um espantoso avental, insistindo em colocar um gigante pedaço de espuma no bolso do mesmo; fazia-se pousar ainda com uma rosa encarnada na orelha direita. Existe o Don Juan para os espanhóis, o Don Giovanni para os italianos, o Sean Connery para os ingleses, o Clark Gable para os americanos e em Portugal apareceu, numa tarde de terça-feira, o nosso Don João Botto.

Um dos pontos altos da festa surgiu com o aparecimento da minha bailarina de peso, mas que fez suar o velho mestre; entenda-se um suor de fadiga, não de lhe pegar ao colo. Sinceramente tinha mais pedal do que eu, e os dois abrimos uma clareira de adeptos, enquanto dançávamos – A Ginger Rogers e o Fred Astaire dos tempos modernos! Sem uma prévia coreografia ao bom nome de uma Pina Bausch ou de um Maurice Béjart, moldámo-nos ao ritmo explosivo das colunas, com aquela coragem de autodidactas. O meu par era finalista de cartola, tendo que se sujeitar às três estucadas. Nota número dois para os não portuenses: todos os finalistas usam cartola e bengala, sendo "agredidos" com três batidelas na cartola. No final da festa são geralmente poucas as cartolas virgens – “ai que me rasgas”.

Lembro-me de andar com o Liberal a correr atrás de uma carrinha, penso que da Faculdade Fernando Pessoa, uma vez que se encontravam a distribuir bifanas. Todo o bom amante da pinga, para além de dois almoços, tem de forrar o barril (refiro-me ao estômago) com três bifanas; ficando nós amigos intimos do pinguim que andava a distribuí-las, após chorarmos e vendermos o corpo na troca de umas quantas.

O melhor episódio foi sem dúvida protagonizado pelo artista Botto, referenciado anteriormente como gigolô, e agora como messias digno de Oscar. A verdade é que este velho amigo, já mesmo no fim do cortejo, quando todas as carrinhas já tinham passado; eis que este velha guarda se lembra de entrar num daqueles carros que limpam e varrem os despojos do dia. O motorista ficou incrédulo enquanto o Botto, já lá dentro, desatou a acenar para a multidão, por entre o enorme vidro, gestos de Ave Maria e Pai Nosso. A multidão respondeu: “Abemos Papa”. Aí já nem o motorista conseguia conter um enorme sorriso a puxar à gargalhada, neste dia de marejar de emoções. “And the Oscar goes to Johnny Botto”, actor multi-facetado – mulherengo, acrobata, Papa, melhor companhia e mega disposição. Então Botto que tal a sensação de se ser Papa por um dia, sentado num Papa-mobile e a cheirar a lixo? Bom, o Johnny não veio à cerimónia de entrega do prémio por se encontrar na horizontal, a rebolar na estrada. Em nome dele fui receber o tão justamente merecido Oscar; retorquindo as palavras que seriam inequivocamente dele: “Eu não me acredito... ahhhhhhh eu não me acredito... o que fiz não vale um chicote... traaaaaaannnnnnquuuuuuiiiiiiillllllllloooooooo”. Meu amigo, ainda aqui tenho, na prateleira ,o teu troféu.

Caro leitor, se ainda não tiveste a sorte de assistir a um cortejo, então que esperas? Remédio Santo para quem esteja deprimido, sofra de claustrofobia (cura com tratamento de choque), não tenha visto pessoalmente o emplastro e queira autógrafo (um chocho), ou não conheça de todo o norte. E nem só do álcool se vive neste dia, eu que o diga, já lá estive como “cool driver”.

Peço àqueles que, possivelmente saibam mais sobre o nosso paradeiro, neste maravilhoso dia, que o relatem pois, isto foi tudo o que consegui relembrar à custa de muito esforço, de fotografias e de fármacos para a memória. Venho ainda pedir à “guapa” que deixou ficar o soutien e fisga (fio dental) nos bolsos das minhas calças, para vir reivindicar os seus pertences. Em troca receberá amor eterno!

Todos aqueles que quiserem saber de mim, a uma terça-feira da primeira semana de Maio, é certo que lá estarei; para mais uma queima, mais um cortejo, mais uma história para contar, mais umas cambalhotas mas... com muito juízo como só eu sei. Mãe, se do escritório telefonarem, neste mesmo dia, para saberem do meu paradeiro; diga que estou doente, muito, muito doente... na realidade porque em Lisboa não se encontram festões assim...


Ainda antes de almoço - gentlemen start your engines! Faz lembrar aqueles anúncios da Tommy Hilfiger

No segundo almoço - que olhos!!! Podiam ser maninhos

Segundo almoço - Irmandade do tintol

Turminha de futebol. Ó Botto acorda meu!!!

Oube lá... bocês aí! Não têm cartola? Então boltem lá para o jardim-escola!

Pois... sim... e tal

Porto: socalcos no olhar!!!

De borrar a cuequinha!!! Menina não rasga a camisa! Qual delas a mais linda? Ajudem o jovem a escolher!

Momento Kodak: espalhar magia...

Cartolas de Direito? Ou então não...

Olha quem é ele! O senhor fotogenia. Emplastro "4EvEr"!!!

As câmaras amam-no e esta não foi excepção. Com o seu novo brinquedo - o mini-Pintinho.

Carolina Michaela meu amor, onde estás tu? O meu coração palpita com força que não é sua. Reparem no ar de espanto destes personagens.

Carrinha de morcegos enlatados dizendo: "Pagar no privado não é fácil". Até parece que pagar, seja avulso, cartão ou cheque é, alguma vez, coisa fácil... privado ou não!

Deixar de ser caloiro; take número 157...and cut.

Bésame, bésame mucho como si fuera esta noche la última vez...

Don Juan Botto, o eterno sedutor.

"My Lady; conceda-me a honra desta valsa!"

Par maravilha! A comitiva parou para os deixar dançar.

Tell me when will you be mine; tell me quando quando quando; we can share a love devine; please don't make me wait again...

Aquele beija-mão! Protocolo incorrecto - o senhor, ao aproximar-se da senhora para o gesto em causa, deve proferir o acto do beijo na sua própria mão e não na da excelentíssima. Por estar no norte perdoa-se... ahahah...

Havaiano de bengala às costas: o Charlot do futuro

Toma lá bolachas!

"Deixem-me subir"

Lá porque te conheço não há cunha; também levas!

A foto das fotos - TOP! Sempre que vejo esta imagem não consigo parar de rir. Servirá de terapia naqueles dias cavernosos de má disposição! Sem dúvida o maior personagem da Queima. Estou na dúvida se foi actuação ou é mais uma das suas carismáticas façanhas. Põe-te fino ma friend!

Invicta - meu Porto de abrigo, cidade que amarei sempre; pelos costumes, pela insustentável beleza das pessoas, simplicidade de um povo... amizades insubstituíveis. Quem sabe se um dia o Douro desaguar em Lisboa............. quem sabe.........

quinta-feira, outubro 13, 2005

FEIRA DA LADRA – O OUTRO LADO


Foram-se somando os anos e a vontade da imperativa visita à Feira da Ladra permaneceu...irrealizável. Mas, prioridades são prioridades e as minhas sempre foram no sentido de coleccionar manhãs de Sábado, na companhia dos lençóis, instituindo a paz semanal. Neste passado fim de semana as prioridades foram outras, jogaram a favor da Ladra, isto porque um grupo de amigos (Brunos, Luís e Pedro) se aventurou nos meandros da Feira. Queriam passar para o outro lado do balcão; experiênciar a outra face do espelho - a de comerciantes.

Juntaram todo o bricabraque, adquiriram a licença e fizeram-se ao “negócio”. Sinto ser uma profissão honrosa, desde que quem a pratique se coadune com os requisitos mínimos de civismo. Afinal quem não quer despachar umas quantas traquitanas enclausuradas no pueril baú do esquecido sótão?!

A Feira da Ladra, com raízes que remontam ao século XIII, mudou sucessivamente de sítio até se fixar no campo de Santa Clara. Este passado histórico da feira vem-se eclodir no de caixeiro viajante dos próprios feirantes.

Relembro-me que o acordar, neste prometedor Sábado, fora desafio heróico; tal era a força da gravidade exercida sobre o meu flácido corpo com timbre alucinado. Os meus amigos, esses sim, considero-os os verdadeiros estóicos na medida em que abriram o estaminé logo pelas seis da manhã, assegurando assim um bom “spot”.

Iniciei, com a Joana, a incursão por volta das nove e meia da manhã. Vagueei por toda a praça de forma metódica e olho de felino. Queria sentir o clima, sorver o aroma da manhã, absorver-me no espectro da quinquilharia. Com passos lentos e precisos, ia conhecendo um novo mundo, de uma feira...em tudo diferente das outras que conhecera; embora relembrando a de Nothing Hill. Havia barracas de muitos géneros, nos gostos e produtos que ofereciam/vendiam. Avistei as dos “habitues” na arte de bem aldrabar, as dos artistas, as dos alfarrabistas, as dos vira-latas e até as de gente como eu e os meus amigos.

Foi na tenda de um artista autodidacta, com artesanato sino, que me detive por prolongados e apaixonados momentos. A Joana retivera o olhar em tecidos de seda chineses, suspensos para venda num pinheiro. Como tal, teceu-se ali um efémero contacto. Este cinquentenário homem, embora português, vivera muitos anos nas Ásias, contrastando com a sua nórdica aparência, “enqueixando” uma acinzentada pêra de bom profeta, lenço ao pescoço, chapéu Indiana e todo ele envolvido em ganga. Não será demais apelidá-lo de “o Attenborough da Ladra”.

Neste contacto, ficámos a conhecer um pouco deste nómada, suas aspirações e sonhos...as estampagens numa peça de roupa que nunca finalizou, destinada ao filho que mal conhecera, onde pretendia incluir os sonhos deste primogénito, entre amores e brincadeiras que os interligavam. Na altura, esta criança com apenas oito anos, hoje com dezoito e com a paixão pela arqueologia. Dissera-nos, com carisma, este pai que, talvez com um simples traço, perfazendo o número 1, pudesse completar a dita camisola. Dez anos de sonhos perdidos...numa camisola que, segundo afirmava, adquiriria as formas do corpo e a lucidez do movimento. Espero que um dia esta peça de roupa encontre o seu dono, acreditando eu também que possuirá movimento, impregnada em vida própria, no corpo de um jovem de rosto esmorecido.

Já tínhamos dado praticamente a volta ao circuito e continuavamos sem encontrar a razão da caminhada, e foi quando nos preparávamos para cortar a meta que os avistei. Como bom mirone, procurei observá-los por intermédio da discreta janela de um carro que serviu de escotilha. Quem diria...o que o meu espiar concluiu! Aquele bailado de bons feirantes, postura de quem vende uma relíquia a preço de amigo. A calma e táctica no dobrar das calças, ou o empunhar de camisolas aos olhos de todos os clientes! Dirigi-me até eles numa gargalhada, devolvida por quatro sorrisos na minha direcção, manta no chão, uma vitrine a céu aberto, calças, camisolas, sapatos, casacos, t-shirts, parafernália informática - mas que grandes ciganões!!!

Apercebi-me de que as mercadorias voavam entre braços de fregueses, braços dos meus amigos recém-feirantes; guardadas posteriormente em sacos de plástico de quaisquer hipermercados, provisoriamente facultados por estes. Enquanto por lá permaneci, assisti a muitas e cómicas situações, motivos de grande afluência; quatro inocentes almas trabalhando árdua e fidedignamente neste projecto. Passo a citar algumas das experiências, umas que tive a sorte de observar, outras que me foram por eles, apaixonadamente, relatadas.

Soube que os grandes abutres chegaram de madrugada, quando os meus amigos ainda se encontravam a montar a banca. Estes “profissionais” coleccionadores (como os intitulei), apareceram de lanterna e arrecadaram o principal - os artigos Vintage que os meus companheiros decidiram levar para a feira. Também se depararam com situações tais como um homem que insistia em pagar 9€70 por umas calças de 10€, regateando a diferença. Outro que pretendia adquirir um baralho de jogos de Gameboy na troca de dois velhos telemóveis.

A manta estendida no chão que fora, durante a manhã, mudada quatro vezes de lugar, encontrava-se agora entre duas de dois Grandes senhores da feira: um cigano que vendia pratos, sendo cada um de sua nação e o outro, um alfarrabista cujo volume de negócios era tal que lhe permitia viajar até destinos como Cuba. O cigano decidia trocar a frase de chamariz a cada dez minutos, passando de: “pack de dois por dez euros” para: “pack de 5 por 25 euros...para a menina e para o menino”. Por vezes perguntava-nos se estaria bem àquele preço, se seria imperativa a mudança no valor. Chegou até a querer comprar ao Luís um belo casaco de ganga que passava indiferente ao olhar de outros compradores. Insistia pagar menos do que o meu amigo pedia por ele, e quando o casaco foi finalmente vendido a um terceiro, disse-lhe que o cigano ali era ele e que andava a ser engrupido, soltando de seguida um saudável gargalhar.

Soube também da caricata situação de outro feirante vizinho que, após estar umas escassas horas no acto da venda, se fartou da profissão e pediu apenas cinco euros por toda a artilharia. É no mínimo absurdo pois, no seu catálogo, encontravam-se uns pés-de-pato, entre outros objectos de algum valor. Outro homem aceitou o negócio deste mas, certo é que não consta ter vendido mais nada; pobre homem...o primeiro sabia mais!

Houve gente de todas as gerações e classes em volta da banca dos meus amigos, comprando dos mais variados artigos. Regra geral, os romenos e indianos interessavam-se por mercadoria relativa a computadores, os africanos por t-shirts, os brancos por calças, os meus amigos por fazer um bom negócio, em prol de todos e eu por absorver ao máximo aquele quadro no qual, por vezes, me era permitido interagir. Fiquei impressionado por saber do episódio de um cidadão que decidiu comprar quatro pares de calças de qualidade quando comparadas com as quais se fazia vestir, rotas, estragadas, sujas e gastas de uma vida de posses pouco sonantes. Pedira ao Bruno para lhe cobrar menos um euro por cada uma delas: “o euro que me custará fazer a bainha”.

Deixo para trás os meus amigos, ouvindo-os com verbosidade indomável: “se não lhe servir porque não para o seu filho?”. É caso para dizer: “patins para a avó”...

Nesta feira encontra-se de tudo. É também um lugar onde nos podemos encontrar e deliciosamente aprender com esta miscelânea de raças, de gostos, de ofertas, de saberes e crenças mas que no fundo se reúne todos os Sábados para um propósito - o da troca de géneros, palavras, olhares; quer seja troca por troca, venda, oferta. O que a meu ver considero implicitamente importante passa por fazer rolar os pertences. O que para uns se tornou obsoleto pode, a um preço irrisório, tornar-se na absolvição de um sorriso para outros.

Esplendor na relva, ou melhor, no alcatrão. Calcinha Levi's, camisola Ralph Lauren, alfarrabista ao fundo da tela...ai esta vida de ciganão!!!

"Olhe estas tão boas! Feitas por encomenda. É grátes, é grátes, não encolhem na máquina e com garantia de 3 segundos...e se encolherem...ahhhh.........fica calção". Que parecer bíblico!!!

VERDES INOCENTES ANOS


Apanho o comboio das 17 horas, com destino ao Porto. Faltam sensivelmente cinco minutos para a partida, e ao espreitar por entre a janela, avisto multidões, rostos insípidos de tristeza recortada nos prolongados e sentidos abraços. Bandos de namorados, unidos num último beijo, desejando que aqueles instantes decisivos se tornem vitalícios ou que pelo menos se ampliem milagrosamente em horas, meses, anos. Observo ainda famílias separando-se relutantemente de um pai ou de uma mãe que se ausenta, muito provavelmente na procura de uma vida melhor...de um novo emprego...de uma nova esperança.

Sempre tive como lema que, se de uma despedida se tratasse, quanto mais próximo da partida, mais próximo de reencontrar aquela pessoa estaria; num futuro a definir.........Saudade é uma palavra fortíssima, também na impossibilidade de a traduzir em qualquer outra língua. Fora criada nos momentos áureos dos Descobrimentos, simbolizando um infindável reunir de emoções.

Num relance mais atento, todos aqueles rostos tomam feições magras, esguias, inchadas, rústicas, transparecendo ávidos sinais de melancolia! O comboio parte, dando-me a erronia sensação de que quem se encontra na plataforma inicia a caminhada e de que eu permaneço.

O clima austero e desenraizado vivido na estação é sumptuosamente arrastado para as carruagens. Procuro algum sinal de tranquilidade, e é numa criança que o avisto. Cerca de dois lugares à minha frente, uma menina encontra-se voltada para trás, debruçada sobre as costas do assento. Não consigo desviar os meus olhos de tão magnifica criatura; sendo consumido pelos seus radiosos olhos. Olhos esses de tonalidade verde, vivos e apaziguadores...por instantes penso: “O divino passou por aqui!”. Tal é o seu estado de inocência e de alma pura, belezas essas que um dia inevitavelmente serão roubadas...pela intempéries da vida.

Não sou capaz de ficar indiferente, nem mesmo pestanejar ou soltar as amarras ouso. Encontro-me num vortex cuja miragem é aquela pequena força da natureza. Tudo o resto mera encenação. Perturbado e ao mesmo tempo cativado pela vulnerabilidade, esplendor e insustentável beleza daquele ser humano de sorriso contagiante; só volto a acordar para a realidade no instante em que se faz ecoar o estridente apito do comboio. Abrem-se as volúteis portas, convidando-me a sair...é tempo de partir...chegara ao meu destino...

Ainda não chegou o momento de ser pai, apenas sinto que um filho é o amor dos pais tornado real, é mais pele por onde sofrer! Perpetuar sangue do nosso sangue!

Em tempos fora criança, é nessa tenra idade de suspiros inocentes que se encontra a magnânima beleza da vida; tal como nas pinceladas de um pôr do sol, num bailado de uma onda do mar, desde a sua formação em alto mar ao seu declínio a meus pés ou mesmo no simples bater de asas de uma borboleta, polvurizando micro-alegrias.

quinta-feira, outubro 06, 2005

ARRIFANA DREAM – THE JOURNEY OF A NEW BEGINNING




Sexta-feira, primeiro dia

Cinco companheiros, unidos por um sentimento de liberdade e encontro introspectivo, partiram rumo ao Sudoeste português! Motivo de tão sagaz viagem era, indubitavelmente, mostrar a um amigo de Erasmus, oriundo das Ilhas Reunião, uma das nossas mais avassaladoras pérolas. De facto, a costa Vicentina é um lugar ímpar, onírico, cuja costa recortada assombra os mais destemidos, criando raízes na mais assexuada e lunática alma! O pelotão era constituído por dois bodyboarders (Joka e Evaristo), dois surfistas (André “13” e eu – mero aprendiz) e um bodysurfer (Bruno “Chowi”).

Como qualquer viagem que se preze, esta primou pela espontaneidade na decisão de partir, pouco delineada e apenas vinculada nos traços gerais. O factor surpresa tem um impacto deveras mais saboroso no olhar daquele que visiona os trilhos pelos quais se faz atravessar!

Partindo num final de tarde de uma sexta-feira, já por si solarenga, fizemo-nos ao asfalto com a melodia “Sinerman” de Nina Simone a ecoar e uma sensação de que as luzes da ribalta eram, com todo o agrado, deixadas para trás. O trajecto escolhido foi, como de qualquer grande amante da natureza – trilhos com curvas e paisagem sim, auto-estrada não! Sempre que possível com o mar à nossa direita a perder de vista. Quem se meta em short-cuts sabe, por experiência própria, que nem todos os caminhos vão desaguar em Roma! No nosso caso, o bom do Joka insistia em atalhar por uma estradinha que nem no mapa aparecia mencionada. Resultado evidente, um rally que nos voltou a colocar exactamente no ponto de partida, logo após nos libertarmos da fatídica auto-estrada. O resto da etapa, com algumas paragens habituais, para o chichizinho e tal, para tirar umas chapas à paisagem e ainda para o tão desejado e merecido jantarinho numa pacata terriola de nome Odeceixe.

Fomos levados até um restaurante pitoresco, apenas nós e uma estrangeira aluada como clientela. Convém frisar que, aquilo mais parecia uma arrecadação ou manjedoura! Opinámos sobre a nacionalidade daquela estrangeira que se fazia acompanhar de um livro enquanto degustava, em suaves tragos, um vinho rosado mas com corpo. Permanecia calma e aparentava contornos suaves, embora já de algumas consideráveis Primaveras. Andaria perdida? Em busca de se si mesma? Se sim, então escolheu o lugar idílico para se revigorar. Dou por vezes a perguntar-me em que guia turístico encontram estes visitantes as coordenadas para tão reservados e divinos destinos!

Após um “upload” de informação, arrancado com tenacidade à menina do restaurante, ficámos a saber que a noite por ali prometia, num tal de “Celeiro”...fizemo-nos uma vez mais à estrada, não só porque o sol há muito se pusera mas primordialmente por temermos encontrar apenas restos de cereais no dito bar.

A chegada a Arrifana é sempre uma sensação mítica, quer seja feita na companhia do sol ou de um refrescante luar. Embora sejam já algumas as vezes que lá tenha estado, sinto sempre uma mágica e sedutora energia que me envolve como se da primeira vez se tratasse! Primeira constatação de calma numa noite com a frescura pincelada nas radiosas estrelas que nos abraçavam; convidando-me e aos meus a adormecer, ouvindo o bradar das ondas, baloiçando o nosso leito.

Rasgando o asfalto na procura da Terra Prometida

Short-cuts de "perdição"


Jantarinho em Odeceixe

Sábado, segundo dia

Ainda nem as cores da aurora se faziam sentir, flutuávamo-nos no silêncio da noite quando um imprevisível galo cacarejou. Não passariam das cinco da matina e o austero animal repetiu a façanha entre as Laudas e a Prima. Até mesmo ao meio dia o ouvi. Reza o conhecimento popular que, só se se ouvir o cacarejar antes da meia-noite é que se pode considerar mau presságio, depois disso será sempre uma alegoria matinal.

Acordar e pequeno-almoçar no nosso alpendre, ao sabor de uma paisagem tão avassaladora como tranquila e apaixonante, respirando a paz Vicentina é algo que não podia deixar de frisar; embora sabendo que aquela beleza homeopática não era passível de ser reportada, por mais ricas e adequadas palavras que usasse.

Seguiu-se a primeira descida até à praia em busca de uma linha perfeita mas, tivemos que nos revezar com o cafezinho no bar e umas belas vistas na areia, em toalhas próximas das nossas; durando toda a manhã.

Não fugindo à nossa essência, rumando à caça da onda que quebraria aos nossos pés, demos um salto até outras praias, fazendo check-point em quase todas. A que se nos revelou mais generosa não podia ser senão a velha amiga “Cordoama”. Trilhos e trilhos de calhau e pó até avistar meio metro glass, brasa e originais carripanas de matricula estrangeira que fazem jus e dão alento àquele areal. A carrinha de todo o surfista estrangeiro tem alma própria, transparecendo o ritmo nómada e errante do seu guerreiro, que se aventura naqueles magníficos chaços, percorrendo incontáveis milhas até ao nosso Portugalinho! Todas se fazem acompanhar de dormitório, cozinha completa e uma bela “ragazza” para massajar e mimar o belo do “foreign surfer”. Diria mesmo que todo aquele aparato de cores garridas faz inveja a qualquer Tuga! Cada estrangeiro tem uma história para contar, um retalho de vida marcante, tendo uma enorme necessidade e prazer em travar conhecimento connosco. É curioso constatar o número cada vez maior de nómadas por estas paradas, a atracção e apelo do mar...muitos vêm sem regressar. Instalam-se, tornando-se proprietários de um rústico cafezinho, estabelecem-se, escapando ao stress rotineiro que outrora lhes parecia destinado.

Voltando a nós, a surfada correu tranquilamente bem, e os cinco já sem trincarmos nada há várias horas, mergulhámos até Sagres para petiscar umas sandwishes na pacata praia da “Mareta”. Aí, o bom do Chowi descobriu a pólvora; nada menos do que encontrar vestígios de carvão em todos os calhaus que rachava. Numa análise mais detalhada, nada mais do que vestígios inerentes a qualquer rocha sedimentar, básico né? Como bom pica-milho pegou-se na ideia e lançou-se concurso...tiro ao calhau racha. No areal, um cão veio-nos acompanhar. Não consegui ficar indiferente ao seu olhar vadio, sapiente e rameloso, nem mesmo ao seu manear de quadril...tive que lhe tirar uma foto...ele, a areia e o mar...

O sol iniciava a sua descida diária e optámos por mostrar ao Chowi os seus últimos suspiros na sempre silenciosa e isolada praia de “Ponta Ruiva”. O trilho a percorrer é longo e nem sempre fácil discernir onde avistá-lo. Tons mesclados de amarelo e laranja tórridos servindo de cúpula, na eminência de uma efémera lusco-fusco, sendo portanto eminente avistar a praia! Há uns anos que não ia até lá, apoderado por uma aguçada curiosidade em constatar se as nossas iniciais ainda se encontrariam esculpidas numa incomensurável rocha, do lado esquerdo da praia, quando se avista o mar. Verdade é que a água devorara os nossos Henry Moore...

Ponta Ruiva, praia de maravilhas mil, bailado de areia, rocha e mar...aquele rochedo escarpado a este, com os últimos raios de luz delineando e recortando a paisagem, um regalo para a vista! Muita rocha, areal a perder de vista e uma sensação de que éramos os únicos felizardos a captar aquele mimo. Parqueámos já na areia densa, embora o lema seja: “destrua as ondas não as praias”, fui invadido pelo bichinho do pseudo-TT mas...coisa soft.

A jantarada não podia deixar de ser na mítica Tasca do Careca com aquele husky de olhos malhados (um castanho e outro verde) como mascote da casa! Para quem não conheça, ali janta-se muito bem e a baixo preço.

Já no calor da noite, embora a lua fosse ainda uma criança, era imperativo picar ponto no Dromedário Bristo Bar. Encontrávamo-nos em pleno Maio e apesar de ser época baixa, bailavam algumas gatinhas! Eu e a minha turma demos show de dança, desprovidos de preconceitos de imagem. Bombar descalços um swing, mergulhando no risco de sermos espezinhados pelo belo do bêbado que por lá deambulava, aumentou a parada. Seguiu-se a ida ao Arcadas para abanar o capacete...grande pausa, “five stars” e mais não digo...fui proibido de o relatar!

Fazer cerca de vinte e cinco quilómetros de regresso a casa, por troços sinuosos e as primeiras cores do sol nascente, trespassando a vista fora algo que, neste dia, me custou percorrer, tendo o Joka sido deixado para trás. Encontrava-me com o Evaristo a tentar içar um vidro da jipeira, estacionada em Arrifana, quando voltámos a avistar o nosso esquecido amigo. Fora levado até nós em carro desconhecido, por intermédio de uma menina “inocente” que o conduzira, encontrando-se o Joka à patrão no banco de trás com um sorriso que lhe rasgava a face, bebendo champanhe e comendo morangos...aquele felizardo sacana!

Alpendre

Limpa pára-vistas

Calhaus com sedimentos de carvão...mas o que é isto óh meu!!!

Aquele solitário uivar @ Mareta

Na rota de Ponta Ruiva

Os cinco na cúpula de Ponta Ruiva

Estacionamento VIP...terapia para a jipeira @ Ponta Ruiva

Caminhada ao encontro do cume ruivo

Abraçar a PAZ en Ruivinha

Estamos Vivos!!!

Sinais da nossa delinquente inocência...

Quando a sede aperta...o Dromedário dá...não, não é água meus amigos...

Na retina de um copofónico @ Dromedário
Espalhar Magia...vibes, suor e álcool na bossa do Dromedário
Bucha&Estica. O da esquerda é o bêbado artilhado com o swing/golpe de anca e patada


Domingo, terceiro dia

A alvorada foi, mais uma vez, da autoria do sinistro galo, seguindo-se o ritual de todas as manhãs em que tomar banho sempre fora pecaminoso! Trazer vestido o sal das epopeias vividas é mapear na pele os resquícios do dia de ontem. Já Gonçalo Cadilhe dizia: “...eu gosto de adiar o duche para o dia seguinte, gosto de deixar o sal no corpo algumas horas, dum dia para o outro, o tempo que é preciso para corroer as impurezas enfiadas nos poros”

O mar não se mostrou generoso, ficando-nos pela nossa Arrifana, já banhada pelas nossas amigas da manhã anterior. Aqui o vosso amigo que levara praticamente a casa às costas esquecera-se do primordial, aquele artefacto que ninguém ousa esquecer quando dá o saltinho à praia. Pois é, aquela peça de roupa denominada fato-de-banho. Como tal, mergulhei com o acessório de último grito em matéria de Verão, o kit boxers, sendo motivo para muita chacota e de toda a atenção das bronzeadas fêmeas.

Na conhecida rampa de Arrifana deparámo-nos com um jipe de geninhos, subida essa que a mim sempre me recordou uma mítica rua em São Francisco denominada “The Croocked Street” pelos seus laivos rectos golpeados por curvas agudas. Percorríamo-la de carro quando lhes tive de ceder passagem. Os sempre impecáveis GNR passaram por nós sem nada declarar...aproveitei para lançar o rastilho, tendo-lhes dito que, para a próxima não lhes ficaria mal agradecer. Certo é que a verdade não fora bem aceite, e cerca de dois quilómetros volvidos à estrada avistei, pelo retrovisor, um caixote verde eufórico, obrigando-nos a encostar. Um dos agentes aproximou-se, batendo-me a pala, gesto entrecortado com um intimidante “boa tarde...os seus documentos”. O segundo agente encarregou-se de “apertar” com o 13 que se encontrava no lugar do morto, alegando tê-lo visto sem cinto. Uma vez que nada de “paranormal” encontraram, perguntaram-me se tinha tido consciência do que lhes disparara instantes atrás. Com um vigor afirmativo repeti as palavras catalisadoras daquele confronto de titans. De seguida, perguntaram-me, num suspiro irónico, se conhecia o código da estrada. Olhei-os fixamente e proferi: “ com certeza que era obrigado a dar-lhes prioridade e foi o que fiz. Embora estivesse com o carro cheio, tábuas, toalhas e muita tralha, perdendo visibilidade; recuei em descida, encostando para que passassem e os senhores jamais se dignaram a agradecer-me”. Para se justificar, o agente nº1 acrescentou que fora o tom pouco amistoso que escolhera para os interpolar. Aí disse-lhe que estava simplesmente a educar quem precisava de o ser e que proferia aquelas palavras como se de um civil se tratasse, desprovido de patente. Por nunca recuar na minha posição, o senhor guarda acabou por baixar a bolinha, voltando a fazer-me continência e desejando aos cinco uma bela tarde.

Em suma, as autoridades julgam-se uns fangios, senhores todos poderosos e virtuosos, desprovidos de toque de educação. É por muitos se conformarem com este género de situações que estes meninos grandes abusam do poder que lhes é conferido. Sei que, neste dia, lhes dei uma lição, tendo levado a melhor. Sei também que nessa mesma noite, por volta do jantar, ao regressarem para as suas Solanges Marlenes, lhes choraram no colinho que eram uns fracos, que já nem como polícias serviam, sendo enrolados pela astúcia da verdade.

Ainda na procura de um bom swell, navegámos na Internet, algures em Aljezur, constatando que Neptuno não queria negociar connosco. Entretanto o ávido 13 assediou uma algarvia que se encontrava numa cabine telefónica, digitando para algures em África. É de frisar que era Domingo e que a PT aos fins-de-semana é muito generosa. De realçar que o nosso André a abordou em pelota, com aquele charme que lhe é tão característico!

Como bons lenhadores, seguiu-se a apanha de lenha para a churrascada ao jantar, embora me apetecesse sabores do mar. O máximo da cumplicidade de sensações que se estabelece entre o paladar do surfista e o mar encontra-se num prato de ostras cruas... regadas com limão, sendo lascivamente lambido o seu interior, entrecortando a operação com apaixonantes tragos de um refrescante brindar de vinho branco...

Enquanto o Joka e o Chowi preparavam o lume, o Evaristo entretinha-se na elaboração de um vodka-caramelo, receita reunionesa. O 13 espreguiçava-se com a sua pose de bacalhau e eu tirava umas polaroides ao cair da noite. Aquele pitéu soube a mel, sempre na companhia do relinchar do mar, fazendo-me esquecer o meu desejo de grávida – as afrodisíacas ostras! O nosso alpendre fazia lembrar uma tenda no deserto, um banquete digno de qualquer Xá.

I just call to say I love you...Olha o assédio! Tenho saudades das velhinhas cabines cujos créditos voavam e ficávamos pendurados no impulso...

Allô Allô!!!

Aljezur

Olha o lenhador!!! Que puto reguila!!!

Eis um lenhador da velha guarda...qual machado ou serra eléctrica. Aquele tenaz arremesso!!!

Aqui há lenha

Na preparação da vodka reunionesa

A fogueira das vaidades

O sorriso do mestre

Minutos contados...intermináveis à espera do pitéu

Alpendre --> tenda no deserto

Agora no estômago



Segunda-feira, quarto dia. The last day over the paradise!

Neste dia o nosso despertador fora outro. Alguém triturava a parede exterior da nossa cabana. Aquela gente não perdoa, não passava das oito da matina! Estavam a caiar a parede; tendo para nós sido pecaminoso abdicar do zumbir do mar!

Fazer malas quando se trata do regresso é algo que sempre me foi doloroso. É estranho como à mesma actividade, em fases distintas da viagem, é dado um empenho diferente. Despedimo-nos daquele que fora o nosso abrigo por três noites - um prolongado adeus, retendo aquela vista do nosso alpendre, imagem que ainda hoje trago presente na memória.

Voltámos à Cordoama para a derradeira onda. Nada mudara. O parque automóvel mantinha-se decorado com matrículas estrangeiras pois, para estes, a vida continuava... alí em Vicentina. Sem dúvida as melhores ondas de toda a viagem, algo já na calha e merecido!

Já para o fim do dia, quando me encontrava a fixar as pranchas no carro, deparei-me com o amigo 13 a espernear-se na areia. Quem o conheça bem, reconhece aquela característica pose de bacalhau. É óbvio que o quisemos imitar, sem qualquer sucesso, ou não fosse o original peça única... inimitável.

Horas de nos fazermos à vida... tempo da despedida. A tristeza era algo latente no olhar de todos, embora no Chowi este sentimento se fizesse expressar com maior vigor. A sua face era, naquele momento, um enorme abraço de saudade, confessando-nos num soluçar, acompanhado de um profundo olhar lacrimejante, que ali se sentia em casa. A milhares de quilómetros das suas raízes, em paz, apenas no seio de amigos, preenchido por uma nova paixão. Sei agora, passadas semanas, Portugal ficou-lhe no coração, jamais esquecendo estas memórias rumo ao nosso sul. Digo-o porque soube recentemente do seu entusiasmo pela nossa língua, tendo inclusive procurado informação sobre cursos de português na embaixada brasileira em Itália, onde reside. Para além disso, como meio de aprendizagem, mantém-se activamente interessado em músicas brasileiras e portuguesas. Afirma achar uma piada inexplicável à nossa língua, aos nossos costumes e forma de encararmos a vida.

É muito reconfortante saber e sentir que o objectivo da nossa viagem fora estabelecido em todo o seu horizonte. Assemelha-se a saber que a prenda que, carinhosa e meticulosamente escolhemos para oferecer a alguém, foi muito calorosamente recebida.

Agora que a viagem terminou, restam memórias que me encarregarei de guardar com todo o carinho. Por vezes, dou por mim em estado retrospectivo, visualizando com enorme saudade o que vivi na companhia de quatro amigos. É esta a magia de viajar, embora aproveite na integra o momento em que a vivo, é uma benção revivê-la nos instantes que me foram mais marcantes.

Os amores dum surfista em viagem são amores impossíveis, porque um surfista em viagem é como um marinheiro, só que em vez de uma mulher em cada porto, um surfista sonha com uma onda em cada praia. O...ama A... pelo efeito que A...provoca em O...sendo O o surfista e A a praia ...ou será ao contrário?

Não sei se me voltarei a juntar a este fabuloso grupo de amigos para uma futura viagem. Apenas sei, usando palavras de Charlie Chaplin que: “Cada pessoa que passa pela nossa vida, passa sozinha, isto porque cada pessoa é única e insubstituível. Cada pessoa deixa um pouco de si e leva um pouco de nós. É essa a mais bela responsabilidade da vida e, a prova de que as pessoas não se encontram por acaso”. Estar entre estes foi... estar nos braços da paz!

É tempo de voltar a sonhar...com um céu boreal...com o gosto do mar...o sal no corpo...a companhia a pulsar...vou fibrar o destino...de mansinho...sem que ele dê por isso...e se der? Não fará mal...já estará destinado...com muita fibra...


Última manhã, após o acto de bem pequeno-almoçar

Verde, amarelo e encarnado. Chapa disparada pelo Chowi. Este tipo até a nossa bandeira conhece!

Olha o kadett, para quem julgasse que desta não vinha; engane-se!!!

Pergunto-me mas porque é que nunca se apanha o master no auge? Porque para o master, o auge está presente em todas...e em situação de eu também ir para o mar solto a máquina! Tenho de pedir uma "water-proof" ao velho gordo e vermelho

Toca a apertá-las...às pranchas pois as touras de dia são vitelos

@ Cordoama

Esta e aquela pose de bacalhau!!!

Clonagem


@ Cordoama. Sem palavras. É TOP!!!

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