QUEIMA 2005 – QUANDO O CALOIRO SAI À RUA EM DIA DE CORTEJO
Antes de começar a escrever esta crónica artilhei-me com uma velhinha garrafa de Porto Ferreira, na expectativa de viajar até ao dia que vos relato, acompanhando-me esta até que o último hieróglifo preto seja criteriosamente estampado no branco. Atenção, pretendo apenas saborear o gosto do Norte, mantendo-me sóbrio; contrastando com o ritmo do dia em questão.
Pois bem, no ano 2000 conheci, entre muitas outras maravilhas, o gosto pelo Porto e pela queima das fitas, cidade que aprendi a amar. Na tentativa de não falhar uma, em especial no dia do cortejo; este ano cumpri mais uma vez penitência ou não fosse eu um devoto fiel para a minha Meca.
De onde surgiu a palavra queima? Para um bom ignorante lisboeta palpita a familiaridade com queimar o cérebro. É isso e muito mais, uma festa para todos: quer se trate de caloiros, finalistas de cartola e bengala, ou quem se encontre a um ano do fim do curso, envergando a máscara de morcego, aos saltos nos carros alegóricos ou ainda gente simples como eu – um carismático penetra sem cores académicas. Queimar a fita é um simples gesto, não aconselhando que o levem à letra!
Queima não é queima sem um belo almoço, em boa companhia, onde singre a inigualável boa disposição e implica que seja realizado já no calor do barulho, mesmo em cima do acontecimento. O nosso surgiu na rua do Palácio de Cristal, numa tasca que até então desconhecia. O vinho martelo preparou-nos e anestesiou-nos para toda a temporada, voando o batalhão de seguida para o cortejo.
Com uma vasta comitiva de amigos é sempre difícil manter a união, tendo eu e o Lamy sido os primeiros a largar o barco, na busca do WC. Em vez de chorarmos a separação, misturamo-nos no carnaval fora de época, começando a espalhar fantasia. Fui, à priori, assediado e despenteado por uma dúzia de esfomeadas “babes” que, na altura, julguei serem belas e formosas - os milagres do vinho martelo deram-me asas!
O “flash” seguinte de que me recordo foi reencontrar o meu grupo para um novo almoço. É sabido que qualquer amigo do álcool preza ter mais do que um almoço, noutros casos esquece-se de que tomou o primeiro. Francesinhas para camuflar o estômago e nova garrafa de tintol para aquecer a mão e... siga para bingo! Na altura era já apelidado de “o havaiano” e voltando-me a desencontrar, perdi o ex-libris - o grande emplastro! Há dois anos estivera com ele numa outra queima, numa outra circunstância, no instante em que estava a ser levado em braços, após me atirar da carrinha da FEUP para a multidão. Acreditem, o emplastro queria-me dar um chocho! Desta vez, referindo-me à queima de 2005, o emplastro empunhava um boneco que afirmava ser o Pintinho da Costa, enquanto lhe dava fervorosos e apaixonados beijos.
Sempre tivera uma enorme vontade de subir para uma daquelas carrinhas alegóricas, enfeitada com moribundos morcegos. Estava determinado a cumprir o sonho e para o conseguir, pulei para uma delas à força. Já lá de cima comecei a praguejar que procurava a minha amada, esperando que fosse mais do que motivo suficiente para que deixassem o Rei em paz... assim o fizeram!
Foram incontáveis as vezes que passei em frente à tribuna da câmara onde, firme e hirto, se encontrava o Ruizinho Riozinho. Isto agora para os não portuenses: Os caloiros só deixam de o ser uma vez que passem em frente à tribuna onde, o presidente da câmara lhes dá clemência enquanto se agacham; sendo aqui que termina o cortejo. Eu, neste dia, fui e deixei de ser caloiro um inenarrável número de vezes; não queria que a festa terminasse!
Voltei a encontrar o Botto, agora mascarado com um espantoso avental, insistindo em colocar um gigante pedaço de espuma no bolso do mesmo; fazia-se pousar ainda com uma rosa encarnada na orelha direita. Existe o Don Juan para os espanhóis, o Don Giovanni para os italianos, o Sean Connery para os ingleses, o Clark Gable para os americanos e em Portugal apareceu, numa tarde de terça-feira, o nosso Don João Botto.
Um dos pontos altos da festa surgiu com o aparecimento da minha bailarina de peso, mas que fez suar o velho mestre; entenda-se um suor de fadiga, não de lhe pegar ao colo. Sinceramente tinha mais pedal do que eu, e os dois abrimos uma clareira de adeptos, enquanto dançávamos – A Ginger Rogers e o Fred Astaire dos tempos modernos! Sem uma prévia coreografia ao bom nome de uma Pina Bausch ou de um Maurice Béjart, moldámo-nos ao ritmo explosivo das colunas, com aquela coragem de autodidactas. O meu par era finalista de cartola, tendo que se sujeitar às três estucadas. Nota número dois para os não portuenses: todos os finalistas usam cartola e bengala, sendo "agredidos" com três batidelas na cartola. No final da festa são geralmente poucas as cartolas virgens – “ai que me rasgas”.
Lembro-me de andar com o Liberal a correr atrás de uma carrinha, penso que da Faculdade Fernando Pessoa, uma vez que se encontravam a distribuir bifanas. Todo o bom amante da pinga, para além de dois almoços, tem de forrar o barril (refiro-me ao estômago) com três bifanas; ficando nós amigos intimos do pinguim que andava a distribuí-las, após chorarmos e vendermos o corpo na troca de umas quantas.
O melhor episódio foi sem dúvida protagonizado pelo artista Botto, referenciado anteriormente como gigolô, e agora como messias digno de Oscar. A verdade é que este velho amigo, já mesmo no fim do cortejo, quando todas as carrinhas já tinham passado; eis que este velha guarda se lembra de entrar num daqueles carros que limpam e varrem os despojos do dia. O motorista ficou incrédulo enquanto o Botto, já lá dentro, desatou a acenar para a multidão, por entre o enorme vidro, gestos de Ave Maria e Pai Nosso. A multidão respondeu: “Abemos Papa”. Aí já nem o motorista conseguia conter um enorme sorriso a puxar à gargalhada, neste dia de marejar de emoções. “And the Oscar goes to Johnny Botto”, actor multi-facetado – mulherengo, acrobata, Papa, melhor companhia e mega disposição. Então Botto que tal a sensação de se ser Papa por um dia, sentado num Papa-mobile e a cheirar a lixo? Bom, o Johnny não veio à cerimónia de entrega do prémio por se encontrar na horizontal, a rebolar na estrada. Em nome dele fui receber o tão justamente merecido Oscar; retorquindo as palavras que seriam inequivocamente dele: “Eu não me acredito... ahhhhhhh eu não me acredito... o que fiz não vale um chicote... traaaaaaannnnnnquuuuuuiiiiiiillllllllloooooooo”. Meu amigo, ainda aqui tenho, na prateleira ,o teu troféu.
Caro leitor, se ainda não tiveste a sorte de assistir a um cortejo, então que esperas? Remédio Santo para quem esteja deprimido, sofra de claustrofobia (cura com tratamento de choque), não tenha visto pessoalmente o emplastro e queira autógrafo (um chocho), ou não conheça de todo o norte. E nem só do álcool se vive neste dia, eu que o diga, já lá estive como “cool driver”.
Peço àqueles que, possivelmente saibam mais sobre o nosso paradeiro, neste maravilhoso dia, que o relatem pois, isto foi tudo o que consegui relembrar à custa de muito esforço, de fotografias e de fármacos para a memória. Venho ainda pedir à “guapa” que deixou ficar o soutien e fisga (fio dental) nos bolsos das minhas calças, para vir reivindicar os seus pertences. Em troca receberá amor eterno!
Todos aqueles que quiserem saber de mim, a uma terça-feira da primeira semana de Maio, é certo que lá estarei; para mais uma queima, mais um cortejo, mais uma história para contar, mais umas cambalhotas mas... com muito juízo como só eu sei. Mãe, se do escritório telefonarem, neste mesmo dia, para saberem do meu paradeiro; diga que estou doente, muito, muito doente... na realidade porque em Lisboa não se encontram festões assim...
Ainda antes de almoço - gentlemen start your engines! Faz lembrar aqueles anúncios da Tommy Hilfiger
No segundo almoço - que olhos!!! Podiam ser maninhos
Segundo almoço - Irmandade do tintol
Turminha de futebol. Ó Botto acorda meu!!!
Oube lá... bocês aí! Não têm cartola? Então boltem lá para o jardim-escola!
Pois... sim... e tal
Porto: socalcos no olhar!!!
De borrar a cuequinha!!! Menina não rasga a camisa! Qual delas a mais linda? Ajudem o jovem a escolher!
Momento Kodak: espalhar magia...
Cartolas de Direito? Ou então não...
Olha quem é ele! O senhor fotogenia. Emplastro "4EvEr"!!!
As câmaras amam-no e esta não foi excepção. Com o seu novo brinquedo - o mini-Pintinho.
Carolina Michaela meu amor, onde estás tu? O meu coração palpita com força que não é sua. Reparem no ar de espanto destes personagens.
Carrinha de morcegos enlatados dizendo: "Pagar no privado não é fácil". Até parece que pagar, seja avulso, cartão ou cheque é, alguma vez, coisa fácil... privado ou não!
Deixar de ser caloiro; take número 157...and cut.
Bésame, bésame mucho como si fuera esta noche la última vez...
Don Juan Botto, o eterno sedutor.
"My Lady; conceda-me a honra desta valsa!"
Par maravilha! A comitiva parou para os deixar dançar.
Tell me when will you be mine; tell me quando quando quando; we can share a love devine; please don't make me wait again...
Aquele beija-mão! Protocolo incorrecto - o senhor, ao aproximar-se da senhora para o gesto em causa, deve proferir o acto do beijo na sua própria mão e não na da excelentíssima. Por estar no norte perdoa-se... ahahah...
Havaiano de bengala às costas: o Charlot do futuro
Toma lá bolachas!
"Deixem-me subir"
Lá porque te conheço não há cunha; também levas!
A foto das fotos - TOP! Sempre que vejo esta imagem não consigo parar de rir. Servirá de terapia naqueles dias cavernosos de má disposição! Sem dúvida o maior personagem da Queima. Estou na dúvida se foi actuação ou é mais uma das suas carismáticas façanhas. Põe-te fino ma friend!
Invicta - meu Porto de abrigo, cidade que amarei sempre; pelos costumes, pela insustentável beleza das pessoas, simplicidade de um povo... amizades insubstituíveis. Quem sabe se um dia o Douro desaguar em Lisboa............. quem sabe.........


































































